segunda-feira, 26 de novembro de 2012
sábado, 24 de novembro de 2012
LIVRO, JOSÉ LUÍS PEIXOTO
“A mãe pousou o livro nas mãos do filho.
Que mistério.”
Assim começa o romance.
Este livro, deixado ao filho pela mãe, é o fio condutor que leva o leitor a entrar na ação e a desenvencilhar as linhas cruzadas que unem as vidas complexas das personagens, num país onde, entretanto, entrou a liberdade:
“25 de abril de 1974
Ao fim da manhã, enquanto ela recolhia a roupa do estendal da casa de banho, já seca, o Constantino entrou esbaforido a dizer que estava a rebentar um golpe em Lisboa. A Adelaide sentou-se num bordo da banheira, a ouvi-lo. Não o entendeu logo.”
Este livro percorre toda a primeira parte do romance e revela-se na segunda parte como sendo o Livro. E o mistério resolve-se para dar lugar a uma viagem pela Literatura universal.
A ação decorre no mundo rural português da ditadura e o narrador, aparentemente heterodiegético, desnuda, de forma subtil e elegante, temas cruéis como o abandono de um filho: “Os olhos da mãe ficaram parados nos do filho até ao instante em que o seu corpo se virou e se afastou, regressando por onde tinha acabado de chegar.” (página 17); o trabalho infantil: “Havia quem atravessasse a vila para ver uma menina de onze anos a coser à máquina, cheia de desenvoltura.” (página 47); o incesto: “Quando aquilo começou a acontecer, ela não sabia do que se tratava, tinha onze anos e a mãe fazia-lhe pequenos vestidos para as colheres de pau. (…) Mais tarde, mais velha, quando aquilo estava a acontecer, ela facilitava os movimentos do pai, conhecia-os. (…) A mãe estava viva e, depois, a mãe morreu, nunca contariam a ninguém, e ele não parou. Ficou enjoada, ficou prenha, e ele não parou” (páginas 48/49); a gravidez precoce e o aborto: “Então, houve um momento em que toda a escuridão do quarto entrou dentro dela, encheu-a. Envelheceu. Quando o seu corpo rejeitou o que poderia ser uma criança e todo o seu sangue morto, a Lubélia ainda tinha dezassete anos, mas já era velha.” (página 79); a masturbação juvenil: “O Cosme tinha já as mãos dentro das ceroulas. Quando o Ilídio e o Galopim meteram também a mão dentro das ceroulas, houve um cheiro a transpiração, a pila mal lavada, que aqueceu o ar do barracão ligeiramente.” (página 31); a fuga para França: “Quase não se despediu da tia. A velha Lubélia estava a receber o calor do lume quando lhe bateram à porta. A Adelaide abriu e, na rua, no escuro, estava um homem parado a olhá-la. Quando lá chegares, escreve-me um postal.” (página 89); “ O que seria a França? A Adelaide sabia três coisas acerca do país para onde se dirigia” (página 105); o regresso dos emigrantes para passarem as “vacanças”: “Em chegados, o Cosme podia começar a queixar-se dos fogos ruges, das embutelhagens ou das auto-rutas. O pai dele mantinha um sorriso de não entender e o Cosme murmurava-me: É muito anciano, está próprio para toda a sorte de maladias.” (página 232)
Livro é uma estória de culturas desencontradas. Emigrantes que partiram para França e querem regressar a Portugal. Filhos de emigrantes que nasceram em França e querem para lá voltar, rapidamente, quando estão de férias em Portugal.
Livro é uma estória de amor, também ele desencontrado: “Se namorares comigo, dou-te um pombo, cem escudos e um livro.” (página 60); “Assim que chegou à França, escreveu uma carta ao Ilídio, Meu amor, não imaginas o quanto te quero bem, mas não recebeu resposta. Escreveu outra, Meu amor, estás zangado comigo?, mas também não recebeu resposta.” (página 143); “O Ilídio tinha esmorecido depois das cartas que escrevera à Adelaide e ao Josué.” (página 146)
É um romance de escrita criativa, cheia de beleza: “Entrava uma estrada de luz pela porta aberta do barracão da palha. A tapada estava cheia de janeiro. Sem chuva, só a ameaça, o frio crescia dentro das pedras. Também as árvores eram feitas de frio até ao momento em que ardiam no lume e subiam pela chaminé de todas as casas da vila. A tapada cheirava a janeiro.” (página 31)
E tem um final surpreendente. Daqueles que deixam o leitor a olhar para o livro e a perguntar-lhe: qual te vai substituir?
Livro, José Luís Peixoto, Quetzal, 3ª edição, outubro de 2010
terça-feira, 6 de novembro de 2012
LIVRO DE NOVEMBRO - Cafuné de Mário Zambujal
Data: 29 de novembro de 2012. A sessão coincidirá com a vinda do escritor à Biblioteca Municipal
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Ontem, pelas 21 horas, decorreu a primeira sessão do Clube de Leitura, com a presença de cerca de 20 participantes, orientada pela professora Cristina Marques.
O "Livro" de José Luís Peixoto foi o mote para esta sessão, que decorreu muito animada, permitindo a todos os participantes entender algumas originalidades da sua narrativa, estabelecendo comparações com outros escritores como Cortázar, Saramago e até com Almeida Garrett, numa viagem transtemporal de emigração portuguesa para França.
Acreditamos que o objectivo desta actividade foi concretizado com êxito, pois ficou bem patente a importância da discussão, troca de ideias, pontos de vista, despertando o espírito crítico, promovendo a reflexão e discussão das ideias à volta desta obra e simultaneamente criando-se laços de amizade e partilha.
Estas sessões terão uma periodicidade mensal, excepto nos meses de Julho, Agosto e Dezembro.
Entretanto, ficou decidido que no próximo mês a obra a ser explorada será "Cafuné" de Mário Zambujal, que coincidirá com a vinda do simpático escritor à Biblioteca.
“Depois do prazer de possuir livros, não há outro que seja mais doce do que falar sobre eles”
Charles Nodier (1780-1844)
Livro do mês: “Livro” de José Luís Peixoto
Animador convidado: Cristina Marques, prof.
Destinatários: público em geral
Um Clube de Leitura é uma actividade, que envolve a leitura partilhada de um livro escolhido, onde pode expressar a sua opinião e que requer a participação nos encontros e descoberta de outras leituras através do debate de opiniões sobre os livros lidos.
Um Clube de Leitura é uma actividade, que envolve a leitura partilhada de um livro escolhido, onde pode expressar a sua opinião e que requer a participação nos encontros e descoberta de outras leituras através do debate de opiniões sobre os livros lidos.
Para pertencer ao Clube de Leitura é apenas necessário gostar de ler e descobrir que aventuras, emoções, sensações e mistérios habitam por detrás de um livro.
Com uma periodicidade mensal, este clube destina-se a promover o prazer da leitura partilhada, para todos os gostam de ler. As reuniões serão à volta de um livro, previamente escolhido e lido, por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de explorar e de ir mais além, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante e contará com a orientação de um professor convidado.
Objectivos:
• Criar um espaço de exercício de leitura, procurando estabelecer uma relação de proximidade com os livros onde se possam aprofundar a sua capacidade de interpretação individual, trocar ideias e desenvolver o seu sentido crítico.
• Promover a discussão e a troca de ideias a partir de um livro em língua portuguesa.
• Estimular a troca de pontos de vista sobre um livro, um autor ou um tema.
• Despertar o espírito crítico e promover a reflexão e discussão.
• Promover a leitura, assumindo-a como factor de desenvolvimento individual e social.
• Desenvolver estratégias que permitam o desenvolvimento de competências e gosto pela leitura.
• Incrementar o sentido de comunidade e de partilha através de uma actividade comum.
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