segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Umberto Eco, “o homem que sabia tudo”


MOURAD BALTI TOUATI/EPA



Umberto Eco foi escritor, filósofo, professor, semiólogo e crítico literário. Mais conhecidos do que os seus ensaios, são, porém, os seus romances, e em particular "O Nome da Rosa", que se transformou num best-seller internacional. Umberto Eco morreu na sexta-feira, aos 84 anos, vítima de cancro.



Helena Bento
O italiano "La Reppublica" anunciou a morte de Umberto Eco, na sexta-feira, com um artigo cujo título resume bem não só a sua personalidade, como a importância que ele tinha - e continuará a ter - no seu país de origem e no mundo. "Morreu Umberto Eco, o homem que sabia tudo".
Escritor, filósofo, professor, semiólogo e crítico literário, Umberto Eco é autor de vários ensaios sobre semiótica, estética medieval, linguística e filosofia, mas foi com a publicação de "O Nome da Rosa", seu primeiro romance, em 1980, que ganhou popularidade mundial, inclusive em Portugal. Traduzido para mais de 30 línguas e vencedor de vários prémios literários, o livro foi um enorme sucesso de vendas, transformando-se imediatamente num best-seller internacional.
"O Nome da Rosa" é, contudo, um livro não muito dado a rótulos. Tem tanto de crónica medieval como de relato histórico e intriga policial e detectivesca. Durante as suas pesquisas, um estudioso tropeça por acaso numa tradução francesa de um manuscrito do século XIV, escrito pelo monge benedito alemão Adso de Melk, que ali relata uma sua aventura, vivida na adolescência, ao lado do monge fransciscano Guilherme Baskerville, em que os dois, de visita a uma abadia no norte de Itália, em 1327, se veem subitamente envolvidos numa história de crimes, conspiração e descobertas extraordinárias. O romance foi adaptado ao cinema pelo realizador Jean-Jacques Annaud, em 1986.
Além de "O Nome da Rosa", entre os seus livros mais conhecidos estão "O Pêndulo de Foucault", publicado em 1988, "A Ilha do Dia Anterior" (1994), "Baudolino" (2000), "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" (2004) e "O Cemitério de Praga" (2011). Na área das ciências sociais e humanas são também conhecidos os seus "Como se Faz uma Tese em Ciências" e "A Definição da Arte", "Obra Aberta" e "Os Limites da Interpretação".
Umberto Eco não foi o académico e teórico que se protegeu atrás das suas publicações nem o comunicador que opina sobre tudo e a eito. Foi ambos mas sempre na dose certa, e isso nem sempre agradou aos críticos. Eco, de resto, sempre reagiu com humor a tudo o que fosse ego ferido. Numa entrevista de 2002 ao "Guardian", o escritor e filósofo dizia: "Não sou um fundamentalista, dizendo que não há diferença entre Homero e Walt Disney. Mas o rato Mickey pode ser perfeito da mesma forma que um haiku [poema curto] japonês o é.”
Umberto Eco interessava-se por semiótica e filosofia ao mesmo tempo que escrevia sobre futebol e terrorismo e publicidade. A entrevista que deu ao Expresso em abril do ano passado é um bom exemplo dessa diversidade de preocupações. O tema principal eram os livros, mas a conversa fluiu tão naturalmente que jornalista e entrevistado acabaram a falar sobre temas como a migração, refugiados, Estado Islâmico e outros fundamentalismos.
Umberto Eco nasceu em 1932 em Alexandria, uma cidade industrial na região do Piemonte, noroeste de Itália. O seu pai, Giulio, era contabilista, e a mãe, Giovanna, trabalhava num escritório. Enquanto criança, sublinha o "New York Times", Eco passava muito tempo na cave em casa do avô, que era tipógrafo mas na reforma ganhava dinheiro a encadernar livros, a ler as suas coleções de Júlio Verne, Marco Polo e Charles Darwin. Na referida entrevista ao Expresso, Eco conta que a avó materna, "que tinha apenas cinco anos de escolaridade, era uma leitora voraz". "Trazia sempre livros da biblioteca, que lia e me dava a ler. Não era seletiva, devorava Balzac e a seguir uma novela popular. Por isso, aos 12 anos, também eu lia Balzac e novelas de cinco cêntimos, o que me deu o gosto pela leitura", conta.
Eco cresceu, estudou filosofia e estética e formou-se na Universidade de Turim com uma tese sobre a estética de São Tomás de Aquino. A partir de meados dos anos 50 começa a trabalhar na RAI, a televisão pública italiana, em programas culturais. É também nesta altura que começa a interessar-se por semiótica, a ciência dos signos, e é contratado para dar aulas na Universidade de Bolonha (primeiro de filosofia e depois de semiótica).
O seu último romance, "Número Zero" - uma reflexão sobre os jornais e os jornalismo - foi publicado no ano passado. A editora independente O Navio de Teseu, fundada pelo próprio Eco e outros autores, anunciou entretanto que vai antecipar a publicação do último livro do escritor e filósofo para 27 de fevereiro. O livro, intitulado "Pape Satàn Aleppe", reúne as suas crónicas publicadas na revista "L'Espresso" desde 2000.

Fonte:








sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Morreu Harper Lee, a autora de Mataram a Cotovia


  

 A escritora norte-americana Harper Lee, que ainda no ano passado voltou a ser um dos nomes de destaque na literatura com a publicação de Vai e Põe Uma Sentinela, editado pela Presença, sequela da obra-mestra Mataram a Cotovia, morreu nesta sexta-feira. Harper Lee tinha 89 anos. A notícia foi avançada por vários jornais locais e confirmada pela editora da escritora, a HarperCollins, ao The New York Times.

Harper Lee tinha apenas dois livros publicados, focados nas relações raciais no Sul dos Estados Unidos: Mataram a Cotovia (To Kill a Mockingbird no original), publicado há mais de cinco décadas, e Vai e Põe Uma Sentinela (Go Set a Watchman, no original), publicado no ano passado.

Sempre discreta, Lee conseguiu, ao longo dos anos, manter uma vida afastada da atenção mediática que Mataram a Cotovia lhe deu. Em 1961, um ano depois da publicação da obra, a história, contada por Scout, filha de seis anos de Atticus Finch, o advogado viúvo que defende um negro falsamente acusado de ter violado uma mulher branca, valeu-lhe o Pulitzer. Em 1962, foi adaptado ao cinema por Robert Mulligan num filme com o mesmo nome e que valeu o Óscar de melhor actor a Gregory Peck no papel de Finch. Mataram a Cotovia foi traduzido em mais de 40 línguas e vendeu mais de 30 milhões de exemplares em todo o mundo.

“Nunca esperei alcançar nenhum tipo de sucesso com Mataram a Cotovia”, disse em 1964 a uma rádio numa das suas poucas entrevistas. “Estava à espera de uma morte rápida e misericordiosa nas mãos dos críticos, mas ao mesmo tempo tinha alguma esperança de que alguém gostasse de tal forma que me incentivasse”, acrescentou ainda. 
Harper Lee voltou a ser notícia no ano passado, quando a obra que a autora julgava perdida foi publicada. O regresso teve tanto de inesperado, mais de 50 anos depois, que se tornou num dos acontecimentos literários de 2015. Vai e Põe Uma Sentinela foi escrito ainda antes de Mataram a Cotovia, apesar de ser uma sequela desta última – a história acontece cerca de 20 anos depois dos acontecimentos narrados em Mataram a Cotovia.

O manuscrito original de Vai e Põe Uma Sentinela foi escrito por Harper Lee na década de 1950. Foi então deixado de lado pela escritora e depois mal catalogado. Estava guardado num local seguro associado a um dactiloscrito deMataram a Cotovia.
“A meio da década de 1950, escrevi um romance chamado Vai e Põe Uma Sentinela. Baseia-se na personagem conhecida como Scout já adulta e considero-o um esforço muito decente. 

Na época, o meu editor, que gostou muito dos flashbacks que o livro tinha relativamente à infância de Scout, convenceu-me a escrever o romance do ponto de vista de uma jovem Scout. Eu era uma escritora iniciante, por isso fiz o que me disseram”, explicou então a escritora em comunicado, aquando do anúncio da edição do livro.
Lee, também conhecida por Nelle para aqueles que lhe são próximos, nasceu em 1926 em Monroeville, no estado do Alabama. Foi aqui que cresceu, numa época de tensão racial, acontecimentos que marcariam o seu trabalho. Em criança, passava os Verões com Truman Capote, apenas dois anos mais velho. Eram vizinhos e ficaram amigos, com uma relação que perdurou no tempo. Mesmo quando os dois viviam em Nova Iorque.

“O mundo perdeu uma mente brilhante e uma grande escritora”, disse, citada pela BBC, Spencer Madrie, proprietária da Ol' Curiosities and Book Shoppe, uma pequena livraria independente de Monroeville, destacando “as verdades que Harper Lee deu ao mundo, provavelmente antes de o mundo estar preparado para elas”. “Estamos agradecidos por termos tido uma ligação a uma autora que ofereceu tanto. Faltará sempre alguma coisa em Monroeville e no mundo em geral na ausência de Harper Lee.”

Em comunicado, o agente da autora, Andrew Nurnberg, escreveu que o mundo perdeu “um farol de integridade”. “Ter conhecido a Nelle nestes últimos anos não foi só um prazer absoluto mas também um privilégio extraordinário”, acrescentou ainda, contando ter estado com Lee há seis semanas. “Estava cheia de vida”, recordou, destacando a mente e inteligência afiada da escritora. Citava Thomas Moore, lembra ainda.

No Twitter, multiplicam-se as homenagens à escritora. “Descanse em paz, Harper Lee. A única coisa que não se submete à regra da maioria é a consciência de uma pessoa”, escreveu no Twitter o CEO da Apple, Tim Cook, citando uma conhecida frase da obra de Lee.

As causas da morte não foram reveladas. 




quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

LEITURA DE FEVEREIRO






Leitura indicada: "Gaspar Belchior & Baltasar" de Michel Tournier

Destinatários: público em geral

Data: 25 de Fevereiro de 2016



Horário: 21h00 às 22h00







Sinopse
O episódio dos Reis Magos procedentes da Arábia para adorar o menino Jesus, mesmo só tendo sido objeto de algumas linhas num único dos quatro Evangelhos, inspirou grandiosamente a pintura ocidental. Mas quem eram estes reis? Porque deixaram eles os seus reinos? Que encontraram eles em Jerusalém - com o Grande Hérodes - e depois em Belém? Não havendo respostas na História ou na lenda, cabia a um grande escritor responder a estas questões. É o que Michel Tournier procura fazer com este texto, ao mesmo tempo ingénuo e violento, que mergulha nas fontes da espiritualidade ocidental.
Michel Tournier

Nascido em Paris, em 1924, Michel Tournier é considerado um dos mais notáveis escritores franceses contemporâneos. Da sua vasta obra, destacam-se os romances Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico (1967; Grande Prémio de Romance da Academia Francesa), O Rei dos Álamos (1970; Prémio Goncourt), adaptado ao cinema pelo realizador Volker Schlöndorff, em 1996, e Os Meteoros (1975), estes dois últimos também publicados pela Dom Quixote. É ainda autor de novelas como O Galo do Mato, Gilles & Jeanne e Le Médianoche amoureux, textos literários e poéticos como Célébrations, Le Vol du vampire ou Le Miroir des idées, ensaios, contos, poemas, romances juvenis e um livro de viagens, Le vagabond immobile (1984). Publicou a sua autobiografia literária em 1977, com o título Le Vent Paraclet. Michel Tournier é membro da Academia Goncourt desde 1972.

Mais informação:
Michel Tournier (1924-2016), um romancista fascinado pelo mito

ANTÓNIO GUERREIRO 
19/01/2016 - 16:41
O escritor francês, para quem o romance devia ser a elevação de uma história à condição de mito, morreu na segunda-feira aos 91 anos.




Michel Tournier fotografado em 2005 no jardim de sua casa em Choisel AFP / CATHERINE GUGELMANN


Michel Tournier teve uma vida longa, morreu com 91 anos na segunda-feira. Pela sua obra foi muitas vezes considerado – em círculos localizados e zelosos de valores tradicionais do romance – um dos maiores romancistas franceses da segunda metade do século XX e merecedor de ganhar o incerto estatuto de nobelizável. Desde meados dos anos 1990 que quase deixou de publicar.

O seu primeiro romance foi aquele que mais glória literária lhe trouxe. Publicou-o em 1967, quando já tinha 42 anos, e chama-se Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico (foi também o primeiro a ser traduzido em português, por Fernanda Botelho, na Bertrand, e mais tarde na Relógio d'Água; outras traduções dos romances de Tournier foram publicadas pela Dom Quixote). É uma reelaboração plena de implicações filosóficas e antropológicas do mito de Robinson Crusoé. Michel Tournier tinha estudado filosofia. Foi, aliás, na universidade que teve como colega Gilles Deleuze, do qual foi amigo muito próximo.

A Deleuze deve Tournier um longo e profundo ensaio sobre esse seu primeiro romance, publicado no final de Logique du Sens, que muito contribuiu para o reconhecimento público do romancista. Um reconhecimento que se acentua com O Rei dos Álamos, o romance que publicou três anos depois, em 1970, e que lhe valeu o Prémio Goncourt (Sexta-Feira tinha obtido o prémio da Academia Francesa) e que é ainda alimentado com Os Meteoros, de 1975. Mas a partir daí a luminosidade que Tournier tinha alcançado começa a declinar. Os livros que publicou a seguir estão longe de obter o mesmo reconhecimento e, já nos anos 1990, a recepção crítica dos seus últimos livros foi muito pouco favorável.

Ele foi um escritor que queria ser lido por todos os estratos de leitores e que aspirava à universalidade. O seu meio nunca foi o dos intelectuais franceses e muito menos dos parisienses. E a sua escrita do romance procurava uma limpidez que devia muito mais aos grandes romancistas da segunda metade do século XIX do que às experiências vanguardistas do século XX.

Essa vontade de ser lido, sem pressupostos elitistas, determinou certamente a versão juvenil que fez do seu primeiro romance: Sexta-Feira ou a Vida Selvagem (Editorial Presença), assim se chama essa versão, da qual se fez uma adaptação para uma série da televisão francesa. Isso – e o facto de esse livro juvenil ter entrado nos programas escolares – garantiu durante muito tempo a grande irradiação pública de Michel Tournier.

Com esse romance, o escritor definiu o espaço literário em que se quis sempre situar. Para ele, o romance devia ser a elevação de uma história à condição de mito, o que sempre o desviou de todo o realismo e intimismo. O Eu e a realidade empírica imediata nunca foram matéria dos seus livros e causavam-lhe até um acentuado repúdio. Percebemos assim que ele tenha passado do mito de Robinson para o ogre de um célebre poema de Goethe para fazer uma alegoria do nazismo (em O Rei dos Álamos), e tenha a seguir reinterpretado o fascinante mito da gemelidade em Os Meteoros.

A propósito de O Rei dos Álamos, importa dizer que, na sua formação literária e intelectual, Tournier impregnou-se de cultura e literatura alemãs (até como tradutor de escritores alemães, antes de se ter tornado romancista). Apesar da sua formação universitária em filosofia, nunca foi um filósofo e, num livro de ensaios autobiográficos que é também uma reflexão sobre a sua arte do romance, confessa como o convívio com Deleuze o fez perceber a sua menoridade no campo da filosofia.

No entanto, dois filósofos ocupam um lugar destacado no seu panteão: Kant e Leibniz. É de resto o mundo fechado e harmonioso da mónada leibniziana que serve de modelo à estrutura dos seus romances. O que os caracteriza é, de facto, uma estrutura arquitectónica rigorosa e perfeita que lhes dá o aspecto de artefacto muito bem construído por um autor demiurgo que se assemelha ao Deus leibniziano.

Esse lado de artifício onde tudo parece estar predeterminado resulta muitas vezes num estrito monologismo e acabou por constituir a maior fragilidade dos últimos romances de Tournier. Como escritor, foi um defensor de valores clássicos. Escreveu sempre como se não tivesse sido contemporâneo donouveau roman .

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

CLUBE DE LEITURA - JANEIRO

Ontem, pelas 21 horas, decorreu mais uma sessão do Clube de Leitura da Biblioteca, desta vez dedicada à obra "Que importa a fúria do mar" de Ana Margarida de Carvalho.
Trata-se de uma estreia da autora no romance que é garantidamente envolvente e magnífico, arquitetonicamente planeado, obedecendo aos cânones das mais recentes teorias literárias,  assim como às regras utilizadas na escrita criativa, plástica e espartilhada.
A obra está plena de citações, de neologismos, na qual sobressai uma articulação entre várias áreas temáticas, desde o mundo escondido, quase microscópico, até à fauna humana e aos grandes acontecimentos mundiais que acabam também por condicionar um pequeno país.
Este romance leva-nos aos anos 30, em Portugal, ao corporativismo, às prisões políticas, às severas condições a que eram submetidos os presos políticos, ao Tarrafal, à cueldade física e psicológica, à ruralidade de um Portugal amordaçado e esmagado pela ditadura de Salazar e sobretudo à falta de liberdade.
Muito bom!  Mergulhemos na sua leitura pois, não importa a fúria do mar.


 




segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

LEITURA DE JANEIRO



Leitura indicada: "Que importa a fúria do mar" de Ana Margarida Carvalho

Destinatários:  público em geral

Data:  28 de Janeiro de 2016

Horário:  21h00  às 22h00








Sinopse:


Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.

Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma. Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pêlo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.

Que Importa a Fúria do Mar é um romance de estreia com uma maturidade literária invulgar que coloca, frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou. Brilhante no desenho dos protagonistas e recorrendo a um estilo tão depressa lírico como despojado, a obra foi finalista do Prémio LeYa em 2012.

A autora:
Ana Margarida de Carvalho nasceu em Lisboa, onde se licenciou em Direito e viria a tornar jornalista, assinando reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa de Imprensa. Passou pela redacção da SIC e publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claire e na Visão, onde ocupa actualmente o cargo de Grande Repórter e faz crítica cinematográfica no roteiro e no site de cinema oficial da revista, o Final Cut. Leccionou workshops de Escrita Criativa, foi jurada em vários concursos oficiais e festivais cinematográficos e é autora de reportagens reunidas em colectâneas, de crónicas, de guiões subsidiados pelo ICA e de uma peça de teatro.


Mais informação:


"Se o bom escritor é o que reescreve, não cheguei a essa fase. Ainda só escrevo"

DANIEL ROCHA



Ter a liberdade da forma e da linguagem que o jornalismo não dá num livro sobre desencontros e imperfeições. É assim que Ana Margarida de Carvalho fala da sua estreia literária, Que Importa a Fúria do Mar, onde confessa ter sentido a vertigem da liberdade total.
No princípio houve um convite e o medo de aceitar. A jornalista com a facilidade da escrita não garantia uma boa escritora e ela sabia e não queira cair no cliché da jornalista que também escreve ficção. Mas Ana Margarida de Carvalho, 20 anos de jornalismo, aceitou e escreveu um romance sobre "imperfeições" a partir das memórias de um sobrevivente do Tarrafal. Ficção, sublinhe-se, com factos reais e uma geografia precisa num registo que se assume experimental.
É uma pergunta recorrente a um jornalista que se inicia na ficção: o que procurou fazer com a literatura?
Queria ter o que nunca tive no jornalismo. Uma imensa liberdade na forma. Este livro está cheio de imperfeições, mas cheio de experiências também. Dei-me a essa imensa liberdade de poder experimentar uma linguagem por vezes mais rural, outras mais beckettiana, umas vezes mais despojada, outras mais lírica, ou mais absurda. Isso deu-me muito prazer. Escrever à minha vontade, com as palavras que quisesse. Daí o livro ser um bocadinho desigual. Houve um romance que me serviu um pouco de modelo, A Amante do Tenente Francês, de John Fowles (1969), adaptado ao cinema por Harold Pinter (realizado por Karel Reisz em 1981, com Meryl Streep e Jeremy Irons)
É um dos livros do pós-modernismo. Porquê esse em especial?
É muito inovador na forma da escrita. Há uma voz do século XX sobre a Inglaterra vitoriana. Isso sem nunca perder o olhar do século XX. Há um narrador influente, que se mete com o leitor, que se quiser pode inverter a marcha das coisas, e pode dar-se ao luxo de usar a linguagem que quer. Achei fantástico nos anos 80 ter havido a tal adaptação do Pinter e pensei no extraordinário que se fez com essas duas vozes, poder arranjar dois tempos e um narrador livre que intervinha e poderia comentar a narrativa.
No seu livro essas duas vozes, cada uma no seu tempo, são as de Joaquim, o sobrevivente do Tarrafal, e Eugénia, a jornalista que o vai entrevistar. A forma veio antes das personagens?
Talvez em simultâneo. Eu tinha uma ideia muito cinematográfica já há muitos anos. Um homem atirava umas cartas de amor de um comboio em andamento e essas cartas eram encontradas por um mensageiro que as iria entregar à pessoa a quem elas eram destinadas. Essa pessoa acaba por amar o mensageiro e não o autor das cartas que se afasta. Era a minha ideia. A partir daí pensei: não vou fazer isto num país irreal, num tempo irreal. E comecei à procura de resposta para perguntas. Como é que uma pessoa poderia estar incomunicável durante, por exemplo, dez anos? Estando presa. Qual é a fase da história em que alguém pode estar preso e distante sem qualquer contacto? Durante a ditadura, no Tarrafal. Como é que uma pessoa ia lá parar? Cheguei à revolta de operários vidreiros na Marinha Grande, a 18 de Janeiro de 1934.
O real a intrometer-se... Fez muita investigação?
Na Visão sempre que era preciso fazer trabalhos sobre antigos resistentes era quase sempre eu a escolhida e fazia-os com todo o gosto. Tinha já um armazenamento de histórias. Conheci ex-tarrafalistas, conheci senhores que tiveram na revolta da Marinha Grande, muitas histórias de resistentes, pessoas torturadas, ambientes de prisão.
O Joaquim nasceu dessa vivência enquanto jornalista?
Não pretendi com este Joaquim fazer uma homenagem a essas pessoas e se calhar isto não é muito justo. Queria fazer um livro sobre pessoas imperfeitas e este Joaquim é extremamente imperfeito, insatisfeito, contrariado por estar ali e que agia por reacção. Só reage por contradição, nega tudo. Só que depois queria que as personagens mudassem.
É assim que aparece a história de amor?
Ou de desamor. A história do boy meets girl, neste caso boy doesn"t meet girl, porque eles não se encontram. Não há hipótese.
Fala de Joaquim e Luísa. Mas há outra história, Joaquim e Eugénia. Outra impossibilidade.
Sim, são dois seres de séculos diferentes. Há ali uma pequena sugestão de qualquer coisa que os aproxima, um entrelaçamento que talvez tenha acontecido, mas que não pode continuar, porque é um amor verdadeiramente impossível. Literariamente são os mais estimulantes. É uma história muito mais de obstinação e de platonismo do que de proximidade física e de sexo. Eu não queria ir por aí.
E porque não?
Espera-se que as mulheres escrevam sobre coisas íntimas. Não queria fazer isso. Talvez a pensar um pouco no que Bergman diz, que nunca filmaria alguém a fazer amor ou a rezar. Não me sinto capaz de escrever uma cena dessas, íntima, sem cair no cliché. E não me queria nada expor... Acho que já há muitas coisas minhas aí.
Na Eugénia, a jornalista?
Sim, algumas. É inevitável se calhar. A começar pelo pronome (risos), um "eu" que me desmascara (risos). Aquela não sou eu, mas podia ter-me ocultado melhor. Ela também é jornalista, embora de televisão. No início era suposto ser apenas uma jornalista frívola que não se interessa nada pelo que está a fazer, mas a personagem acaba por crescer e ganhar uma dimensão quase paralela à de Joaquim.
O tal cliché do escritor que diz que a personagem lhe escapou?
Se calhar os escritores gostam de tornar o processo mais misterioso, mais romantizado. Mas não posso dizer isso. Acho que tive sempre bastante controlo sobre ela.
O livro está cheio de contágios da música, do cinema, de outros livros...
Deixei-as estar. Não fugi deles. Assumi-os. Temi que as pessoas achassem pretensioso. Lá está está, é um risco.
Como foge à auto-censura?
Agradecendo poder escapar à standartização da escrita que é cada vez mais igual, sobretudo no jornalismo. Posso fazer aquilo que posso e isso é uma liberdade assustadora, uma sensação de abismo. Dá vertigens. Estive cheia de inseguranças até à última hora. Cheguei a pensar que se calhar era melhor usar um pseudónimo e não assumir, mas era esquisito, uma ideia estapafúrdia. Não mostrei o livro a ninguém. Foi um acto que mantive secreto.
Nem disse que estava a escrever?
Não. Mostrei um capítulo ao meu filho mais velho. Mostrei uma parte inicial à Maria do Rosário [editora] que me disse "avança" e me deu logo uma segurança.
Não mostrou ao seu pai [o escritor Mário de Carvalho]?
Mostrei as primeiras páginas. E depois o final para ver se havia algum erro grosseiro.
Qual foi a reacção?
Ele não se coíbe de fazer críticas severas. Quando não gosta fica bastante feroz. Se calhar é um tique familiar. Não somos muito exuberantes na manifestação das nossas emoções. Disse: "gosto". Foi um alívio. Deu-me alguma segurança.
Sente-se de alguma forma uma herdeira dele?
Não me atrevo a fazer comparações. O meu pai está noutra galáxia. Não tem nada a ver com este meu livro. Mas o que me inspira, na verdade, são as palavras. Gosto de ver a genealogia das palavras e de encontrar palavras novas.
Também escreve com dicionário por perto?
Ah, sim. Gosto imenso de dicionários. A ideia de encontrar a palavra exacta é muito importante e vou atrás dela. É talvez onde me empenho mais. Outra coisa que acho muito importante é escrever debaixo de uma emoção. Não digo que seja preciso viver as emoções sobre as quais estou a escrever porque seria dar em maluco. Acho que não se deve escrever de forma neutral. Para mim a forma mais rápida de ter ou de me provocar uma emoção é ouvir música ou ler poesia. Desencadeia qualquer coisa.
Quando estava a escrever criou uma imagem de quem a poderia ler?
Não. Uma vez o Lobo Antunes disse-me uma coisa numa entrevista que achei muito interessante. Ele disse-me que há livros que falam e livros que ouvem. Que os livros que falam são os maus e os que ouvem são os bons.
Se perguntar em que categoria coloca o seu...
Gostava que o meu fosse um livro que ouvisse.
Este é um livro ditado pela memória.
Sim, queria que fosse. Por isso é um livro quase sem diálogo. A ideia era essa, contar uma história como se fosse em pensamento. Derivar. Pensamos de uma forma caótica e por associação de ideias.
Conhece o Tarrafal?
Não. Não achei que fosse fundamental. Documentei-me, conheci muita gente que passou por lá. Tive o meu pai preso político. A minha normalidade era ter um pai preso. Eu ia escrever um romance, não um documento jornalístico. O jornalista que escreve é um estigma terrível, quase sempre associado a coisas de que não gosto nada. Já disse que neste livro não ha códigos, não há segredos nem há sombras. Nem sequer tentei fazer um romance histórico. O Carlos Drummond de Andrade disse que há livros que são feitos para preencher um espaço na estante. Obviamante não é o meu. Sinto-me um ser insignificante.
Mas a partir de agora, por exemplo, vai ser provável estar nas estantes ao lado do seu pai. Partilham o mesmo apelido literário.
Se eu os arrumasse por ordem alfabética... As minhas arrumações são loucas. Fiz um livro. Fico contente se as pessoas gostam, mas acho que está cheio de imperfeições.
Relê?
Evito, porque fico muito angustiada. Vejo coisas que acho que não devia ter feito, com erros de principiante.
Quer dizer quais?
Não, a ver se ninguém repara. (Risos). Tem muito do deslumbramento da liberdade. Há a ideia de que o bom livro é aquele que se reescreve. Não reescrevi nada. Talvez tenha retirado uma parte ou outra, mas não tive esse trabalho de depuramento. Escrevi o primeiro capítulo e fui por ali afora. Se o bom escritor é aquele que reescreve, então ainda não cheguei a essa fase. Ainda só escrevo. E essa coisa de usar várias linguagens, acho que é de principiante. Como um miúdo que de repente tem um espaço grande para brincar e quer experimentar tudo. Não fiz um daqueles livros que admiro, que quando se sacodem não sai de lá nada porque não há nada de acessório. Há aqui coisas que se abanasse podiam cair.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

CLUBE DE LEITURA - DEZEMBRO

Ontem, pelas 20 horas, decorreu a sessão do Clube de Leitura com aromas e sabores natalícios condimentados com poesias de Natal.

Sendo que a sessão era sobre Poesia de Natal, marcaram presença muitos poetas da língua portuguesa (David Mourão Ferreira, Vinicius de Morais, Fernando Pessoa, Francisco Manuel de Melo, alguns anónimos), que fizeram as delícias da noite e foram ainda ditas algumas poesias inéditas da autoria de elementos do grupo mais talentosos.

Bom Natal e Boas Leituras!

Um 2016 cheio de esperança e em companhia de "Que importa a fúria do mar” de Ana Margarida Carvalho. A sessão será no dia 28 de Janeiro, pelas 21h00

Até lá, BOAS FESTAS!

 
 
 
 
 
 






terça-feira, 1 de dezembro de 2015

LEITURA DE DEZEMBRO





Leitura indicada:
 Um poema de Natal (à escolha)

Destinatários:  público em geral

Data:  17 de dezembro 2015

Horário:  21h00  às 22h00