terça-feira, 22 de março de 2016

LEITURA DE MARÇO







Leitura indicada: Poesia (escolha livre)

Destinatários: público em geral

Data: 31 de Março de 2016

Horário: 21h00 às 22h00

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CLUBE DE LEITURA - FEVEREIRO

Ontem, pelas 21 horas, decorreu mais uma sessão do clube de leitura, para partilhar impressões do livro Gaspar, Belchior & Baltasar de Michel Tournier, autor que faleceu em janeiro passado. Se a melhor homenagem que se pode fazer a um escritor é ler a sua obra, foi então isso que fizemos. 

Nada melhor do que pegar nas últimas linhas do «POST -SCRIPTUM», para apontar as razões que levaram o autor a efabular uma reinvenção dos Reis Magos: 
"(...) Estas linhas do Evangelho segundo S. Mateus constituem a única menção feita aos reis magos nos textos sagrados. Os evangelhos segundo S. Marcos, Lucas e João não falam neles. Mateus não lhes dá nomes. O número três é geralmente deduzido dos três presentes mencionados: o ouro, o incenso e a mirra. Tudo o resto releva de textos apócrifos e da lenda, incluindo os nomes de Gaspar, Belchior e Baltasar.
O autor tinha portanto a liberdade de inventar, conforme a sua educação cristã e a magnífica iconografia inspirada na adoração dos magos, o destino e a personalidade dos seus heróis.
(...) A lenda do quarto rei mago, vindo de mais longe que os outros, faltando ao encontro a Belém e errando até Sexta-feira Santa, foi várias vezes contada, nomeadamente pelo pastor americano Henry L. Van Dyke (1852-1933) e pelo alemão Edzard Schaper (nascido em 1908), que se inspirou numa lenda ortodoxa russa."

E foi com muito interesse que conhecemos a vida e acompanhamos a viagem de quatro reis, oriundos do Sudão, Iraque, Síria e Índia, que, com as suas motivações (arte, política, amor  e... culinária!) deixaram os seus reinos, para se aventurarem até Jerusalém. 

Só para aguçar a curiosidade, deixamos algumas pistas que os poderão caracterizar:
 - Gaspar, rei de Méroe: "Sou negro, mas sou rei". "A minha curiosidade entra em constante conflito com a reserva e a distância que a realeza impõe".  
 - Baltasar, rei de Nippur: "Quem sabe - disse ele- se o sentido da nossa viagem não se resume a uma exaltação da negritude?" "(...) pretendo-o ainda - o sentido da justiça e o instinto político necessários e suficientes para governar um povo". 
 - Belchior, principado de Palmira: "Sou rei, mas sou pobre". "Compreendi  pouco a pouco que, no seu espírito, o culto da bela linguagem e das belas coisas praticado ao alto nível devia repercutir-se em todos os escalões certamente em virtudes menos nobres mas essenciais para a conservação do reino, tais como a coragem, o desinteresse, a lealdade, a probidade." 
 - Taor, principado de Mangalore: "Somos sempre mais ou menos o reflexo dos nossos empreendimentos e dos nossos obstáculos". "Dia a dia, exercitara uma operação que nunca lhe viria ao espírito em Mangalore e que era, de resto, completamente estranha aos grandes deste mundo: pôr-se no lugar dos outros e adivinhar assim o que sentem, pensam e projectam".

Boa leitura!









segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Umberto Eco, “o homem que sabia tudo”


MOURAD BALTI TOUATI/EPA



Umberto Eco foi escritor, filósofo, professor, semiólogo e crítico literário. Mais conhecidos do que os seus ensaios, são, porém, os seus romances, e em particular "O Nome da Rosa", que se transformou num best-seller internacional. Umberto Eco morreu na sexta-feira, aos 84 anos, vítima de cancro.



Helena Bento
O italiano "La Reppublica" anunciou a morte de Umberto Eco, na sexta-feira, com um artigo cujo título resume bem não só a sua personalidade, como a importância que ele tinha - e continuará a ter - no seu país de origem e no mundo. "Morreu Umberto Eco, o homem que sabia tudo".
Escritor, filósofo, professor, semiólogo e crítico literário, Umberto Eco é autor de vários ensaios sobre semiótica, estética medieval, linguística e filosofia, mas foi com a publicação de "O Nome da Rosa", seu primeiro romance, em 1980, que ganhou popularidade mundial, inclusive em Portugal. Traduzido para mais de 30 línguas e vencedor de vários prémios literários, o livro foi um enorme sucesso de vendas, transformando-se imediatamente num best-seller internacional.
"O Nome da Rosa" é, contudo, um livro não muito dado a rótulos. Tem tanto de crónica medieval como de relato histórico e intriga policial e detectivesca. Durante as suas pesquisas, um estudioso tropeça por acaso numa tradução francesa de um manuscrito do século XIV, escrito pelo monge benedito alemão Adso de Melk, que ali relata uma sua aventura, vivida na adolescência, ao lado do monge fransciscano Guilherme Baskerville, em que os dois, de visita a uma abadia no norte de Itália, em 1327, se veem subitamente envolvidos numa história de crimes, conspiração e descobertas extraordinárias. O romance foi adaptado ao cinema pelo realizador Jean-Jacques Annaud, em 1986.
Além de "O Nome da Rosa", entre os seus livros mais conhecidos estão "O Pêndulo de Foucault", publicado em 1988, "A Ilha do Dia Anterior" (1994), "Baudolino" (2000), "A Misteriosa Chama da Rainha Loana" (2004) e "O Cemitério de Praga" (2011). Na área das ciências sociais e humanas são também conhecidos os seus "Como se Faz uma Tese em Ciências" e "A Definição da Arte", "Obra Aberta" e "Os Limites da Interpretação".
Umberto Eco não foi o académico e teórico que se protegeu atrás das suas publicações nem o comunicador que opina sobre tudo e a eito. Foi ambos mas sempre na dose certa, e isso nem sempre agradou aos críticos. Eco, de resto, sempre reagiu com humor a tudo o que fosse ego ferido. Numa entrevista de 2002 ao "Guardian", o escritor e filósofo dizia: "Não sou um fundamentalista, dizendo que não há diferença entre Homero e Walt Disney. Mas o rato Mickey pode ser perfeito da mesma forma que um haiku [poema curto] japonês o é.”
Umberto Eco interessava-se por semiótica e filosofia ao mesmo tempo que escrevia sobre futebol e terrorismo e publicidade. A entrevista que deu ao Expresso em abril do ano passado é um bom exemplo dessa diversidade de preocupações. O tema principal eram os livros, mas a conversa fluiu tão naturalmente que jornalista e entrevistado acabaram a falar sobre temas como a migração, refugiados, Estado Islâmico e outros fundamentalismos.
Umberto Eco nasceu em 1932 em Alexandria, uma cidade industrial na região do Piemonte, noroeste de Itália. O seu pai, Giulio, era contabilista, e a mãe, Giovanna, trabalhava num escritório. Enquanto criança, sublinha o "New York Times", Eco passava muito tempo na cave em casa do avô, que era tipógrafo mas na reforma ganhava dinheiro a encadernar livros, a ler as suas coleções de Júlio Verne, Marco Polo e Charles Darwin. Na referida entrevista ao Expresso, Eco conta que a avó materna, "que tinha apenas cinco anos de escolaridade, era uma leitora voraz". "Trazia sempre livros da biblioteca, que lia e me dava a ler. Não era seletiva, devorava Balzac e a seguir uma novela popular. Por isso, aos 12 anos, também eu lia Balzac e novelas de cinco cêntimos, o que me deu o gosto pela leitura", conta.
Eco cresceu, estudou filosofia e estética e formou-se na Universidade de Turim com uma tese sobre a estética de São Tomás de Aquino. A partir de meados dos anos 50 começa a trabalhar na RAI, a televisão pública italiana, em programas culturais. É também nesta altura que começa a interessar-se por semiótica, a ciência dos signos, e é contratado para dar aulas na Universidade de Bolonha (primeiro de filosofia e depois de semiótica).
O seu último romance, "Número Zero" - uma reflexão sobre os jornais e os jornalismo - foi publicado no ano passado. A editora independente O Navio de Teseu, fundada pelo próprio Eco e outros autores, anunciou entretanto que vai antecipar a publicação do último livro do escritor e filósofo para 27 de fevereiro. O livro, intitulado "Pape Satàn Aleppe", reúne as suas crónicas publicadas na revista "L'Espresso" desde 2000.

Fonte:








sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Morreu Harper Lee, a autora de Mataram a Cotovia


  

 A escritora norte-americana Harper Lee, que ainda no ano passado voltou a ser um dos nomes de destaque na literatura com a publicação de Vai e Põe Uma Sentinela, editado pela Presença, sequela da obra-mestra Mataram a Cotovia, morreu nesta sexta-feira. Harper Lee tinha 89 anos. A notícia foi avançada por vários jornais locais e confirmada pela editora da escritora, a HarperCollins, ao The New York Times.

Harper Lee tinha apenas dois livros publicados, focados nas relações raciais no Sul dos Estados Unidos: Mataram a Cotovia (To Kill a Mockingbird no original), publicado há mais de cinco décadas, e Vai e Põe Uma Sentinela (Go Set a Watchman, no original), publicado no ano passado.

Sempre discreta, Lee conseguiu, ao longo dos anos, manter uma vida afastada da atenção mediática que Mataram a Cotovia lhe deu. Em 1961, um ano depois da publicação da obra, a história, contada por Scout, filha de seis anos de Atticus Finch, o advogado viúvo que defende um negro falsamente acusado de ter violado uma mulher branca, valeu-lhe o Pulitzer. Em 1962, foi adaptado ao cinema por Robert Mulligan num filme com o mesmo nome e que valeu o Óscar de melhor actor a Gregory Peck no papel de Finch. Mataram a Cotovia foi traduzido em mais de 40 línguas e vendeu mais de 30 milhões de exemplares em todo o mundo.

“Nunca esperei alcançar nenhum tipo de sucesso com Mataram a Cotovia”, disse em 1964 a uma rádio numa das suas poucas entrevistas. “Estava à espera de uma morte rápida e misericordiosa nas mãos dos críticos, mas ao mesmo tempo tinha alguma esperança de que alguém gostasse de tal forma que me incentivasse”, acrescentou ainda. 
Harper Lee voltou a ser notícia no ano passado, quando a obra que a autora julgava perdida foi publicada. O regresso teve tanto de inesperado, mais de 50 anos depois, que se tornou num dos acontecimentos literários de 2015. Vai e Põe Uma Sentinela foi escrito ainda antes de Mataram a Cotovia, apesar de ser uma sequela desta última – a história acontece cerca de 20 anos depois dos acontecimentos narrados em Mataram a Cotovia.

O manuscrito original de Vai e Põe Uma Sentinela foi escrito por Harper Lee na década de 1950. Foi então deixado de lado pela escritora e depois mal catalogado. Estava guardado num local seguro associado a um dactiloscrito deMataram a Cotovia.
“A meio da década de 1950, escrevi um romance chamado Vai e Põe Uma Sentinela. Baseia-se na personagem conhecida como Scout já adulta e considero-o um esforço muito decente. 

Na época, o meu editor, que gostou muito dos flashbacks que o livro tinha relativamente à infância de Scout, convenceu-me a escrever o romance do ponto de vista de uma jovem Scout. Eu era uma escritora iniciante, por isso fiz o que me disseram”, explicou então a escritora em comunicado, aquando do anúncio da edição do livro.
Lee, também conhecida por Nelle para aqueles que lhe são próximos, nasceu em 1926 em Monroeville, no estado do Alabama. Foi aqui que cresceu, numa época de tensão racial, acontecimentos que marcariam o seu trabalho. Em criança, passava os Verões com Truman Capote, apenas dois anos mais velho. Eram vizinhos e ficaram amigos, com uma relação que perdurou no tempo. Mesmo quando os dois viviam em Nova Iorque.

“O mundo perdeu uma mente brilhante e uma grande escritora”, disse, citada pela BBC, Spencer Madrie, proprietária da Ol' Curiosities and Book Shoppe, uma pequena livraria independente de Monroeville, destacando “as verdades que Harper Lee deu ao mundo, provavelmente antes de o mundo estar preparado para elas”. “Estamos agradecidos por termos tido uma ligação a uma autora que ofereceu tanto. Faltará sempre alguma coisa em Monroeville e no mundo em geral na ausência de Harper Lee.”

Em comunicado, o agente da autora, Andrew Nurnberg, escreveu que o mundo perdeu “um farol de integridade”. “Ter conhecido a Nelle nestes últimos anos não foi só um prazer absoluto mas também um privilégio extraordinário”, acrescentou ainda, contando ter estado com Lee há seis semanas. “Estava cheia de vida”, recordou, destacando a mente e inteligência afiada da escritora. Citava Thomas Moore, lembra ainda.

No Twitter, multiplicam-se as homenagens à escritora. “Descanse em paz, Harper Lee. A única coisa que não se submete à regra da maioria é a consciência de uma pessoa”, escreveu no Twitter o CEO da Apple, Tim Cook, citando uma conhecida frase da obra de Lee.

As causas da morte não foram reveladas.