sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

CLUBE DE LEITURA - JANEIRO

Ontem, pelas 21 horas, decorreu mais uma sessão do Clube de Leitura da Biblioteca, desta vez dedicada à obra "Que importa a fúria do mar" de Ana Margarida de Carvalho.
Trata-se de uma estreia da autora no romance que é garantidamente envolvente e magnífico, arquitetonicamente planeado, obedecendo aos cânones das mais recentes teorias literárias,  assim como às regras utilizadas na escrita criativa, plástica e espartilhada.
A obra está plena de citações, de neologismos, na qual sobressai uma articulação entre várias áreas temáticas, desde o mundo escondido, quase microscópico, até à fauna humana e aos grandes acontecimentos mundiais que acabam também por condicionar um pequeno país.
Este romance leva-nos aos anos 30, em Portugal, ao corporativismo, às prisões políticas, às severas condições a que eram submetidos os presos políticos, ao Tarrafal, à cueldade física e psicológica, à ruralidade de um Portugal amordaçado e esmagado pela ditadura de Salazar e sobretudo à falta de liberdade.
Muito bom!  Mergulhemos na sua leitura pois, não importa a fúria do mar.


 




segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

LEITURA DE JANEIRO



Leitura indicada: "Que importa a fúria do mar" de Ana Margarida Carvalho

Destinatários:  público em geral

Data:  28 de Janeiro de 2016

Horário:  21h00  às 22h00








Sinopse:


Numa madrugada de 1934, um maço de cartas é lançado de um comboio em andamento por um homem que deixou uma história de amor interrompida e leva uma estilha cravada no coração. Na carruagem, além de Joaquim, viajam os revoltosos do golpe da Marinha Grande, feitos prisioneiros pela Polícia de Salazar, que cumprem a primeira etapa de uma viagem com destino a Cabo Verde, onde inaugurarão o campo de concentração do Tarrafal.

Dessas cartas e da mulher a quem se dirigiam ouvirá falar muitos anos mais tarde Eugénia, a jornalista encarregada de entrevistar um dos últimos sobreviventes desse inferno africano e cuja vida, depois do primeiro encontro com Joaquim, nunca mais será a mesma. Separados pelo tempo, pelo espaço, pelos continentes, pela malária e pelo arame farpado, os destinos de Joaquim e Eugénia tocar-se-ão, apesar de tudo, no pêlo de um gato sem nome que ambos afagam e na estranha cumplicidade com que partilham memórias insólitas, infâncias sombrias e amores decididamente impossíveis.

Que Importa a Fúria do Mar é um romance de estreia com uma maturidade literária invulgar que coloca, frente a frente, duas gerações de um Portugal onde, às vezes, parece que pouco mudou. Brilhante no desenho dos protagonistas e recorrendo a um estilo tão depressa lírico como despojado, a obra foi finalista do Prémio LeYa em 2012.

A autora:
Ana Margarida de Carvalho nasceu em Lisboa, onde se licenciou em Direito e viria a tornar jornalista, assinando reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa de Imprensa. Passou pela redacção da SIC e publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claire e na Visão, onde ocupa actualmente o cargo de Grande Repórter e faz crítica cinematográfica no roteiro e no site de cinema oficial da revista, o Final Cut. Leccionou workshops de Escrita Criativa, foi jurada em vários concursos oficiais e festivais cinematográficos e é autora de reportagens reunidas em colectâneas, de crónicas, de guiões subsidiados pelo ICA e de uma peça de teatro.


Mais informação:


"Se o bom escritor é o que reescreve, não cheguei a essa fase. Ainda só escrevo"

DANIEL ROCHA



Ter a liberdade da forma e da linguagem que o jornalismo não dá num livro sobre desencontros e imperfeições. É assim que Ana Margarida de Carvalho fala da sua estreia literária, Que Importa a Fúria do Mar, onde confessa ter sentido a vertigem da liberdade total.
No princípio houve um convite e o medo de aceitar. A jornalista com a facilidade da escrita não garantia uma boa escritora e ela sabia e não queira cair no cliché da jornalista que também escreve ficção. Mas Ana Margarida de Carvalho, 20 anos de jornalismo, aceitou e escreveu um romance sobre "imperfeições" a partir das memórias de um sobrevivente do Tarrafal. Ficção, sublinhe-se, com factos reais e uma geografia precisa num registo que se assume experimental.
É uma pergunta recorrente a um jornalista que se inicia na ficção: o que procurou fazer com a literatura?
Queria ter o que nunca tive no jornalismo. Uma imensa liberdade na forma. Este livro está cheio de imperfeições, mas cheio de experiências também. Dei-me a essa imensa liberdade de poder experimentar uma linguagem por vezes mais rural, outras mais beckettiana, umas vezes mais despojada, outras mais lírica, ou mais absurda. Isso deu-me muito prazer. Escrever à minha vontade, com as palavras que quisesse. Daí o livro ser um bocadinho desigual. Houve um romance que me serviu um pouco de modelo, A Amante do Tenente Francês, de John Fowles (1969), adaptado ao cinema por Harold Pinter (realizado por Karel Reisz em 1981, com Meryl Streep e Jeremy Irons)
É um dos livros do pós-modernismo. Porquê esse em especial?
É muito inovador na forma da escrita. Há uma voz do século XX sobre a Inglaterra vitoriana. Isso sem nunca perder o olhar do século XX. Há um narrador influente, que se mete com o leitor, que se quiser pode inverter a marcha das coisas, e pode dar-se ao luxo de usar a linguagem que quer. Achei fantástico nos anos 80 ter havido a tal adaptação do Pinter e pensei no extraordinário que se fez com essas duas vozes, poder arranjar dois tempos e um narrador livre que intervinha e poderia comentar a narrativa.
No seu livro essas duas vozes, cada uma no seu tempo, são as de Joaquim, o sobrevivente do Tarrafal, e Eugénia, a jornalista que o vai entrevistar. A forma veio antes das personagens?
Talvez em simultâneo. Eu tinha uma ideia muito cinematográfica já há muitos anos. Um homem atirava umas cartas de amor de um comboio em andamento e essas cartas eram encontradas por um mensageiro que as iria entregar à pessoa a quem elas eram destinadas. Essa pessoa acaba por amar o mensageiro e não o autor das cartas que se afasta. Era a minha ideia. A partir daí pensei: não vou fazer isto num país irreal, num tempo irreal. E comecei à procura de resposta para perguntas. Como é que uma pessoa poderia estar incomunicável durante, por exemplo, dez anos? Estando presa. Qual é a fase da história em que alguém pode estar preso e distante sem qualquer contacto? Durante a ditadura, no Tarrafal. Como é que uma pessoa ia lá parar? Cheguei à revolta de operários vidreiros na Marinha Grande, a 18 de Janeiro de 1934.
O real a intrometer-se... Fez muita investigação?
Na Visão sempre que era preciso fazer trabalhos sobre antigos resistentes era quase sempre eu a escolhida e fazia-os com todo o gosto. Tinha já um armazenamento de histórias. Conheci ex-tarrafalistas, conheci senhores que tiveram na revolta da Marinha Grande, muitas histórias de resistentes, pessoas torturadas, ambientes de prisão.
O Joaquim nasceu dessa vivência enquanto jornalista?
Não pretendi com este Joaquim fazer uma homenagem a essas pessoas e se calhar isto não é muito justo. Queria fazer um livro sobre pessoas imperfeitas e este Joaquim é extremamente imperfeito, insatisfeito, contrariado por estar ali e que agia por reacção. Só reage por contradição, nega tudo. Só que depois queria que as personagens mudassem.
É assim que aparece a história de amor?
Ou de desamor. A história do boy meets girl, neste caso boy doesn"t meet girl, porque eles não se encontram. Não há hipótese.
Fala de Joaquim e Luísa. Mas há outra história, Joaquim e Eugénia. Outra impossibilidade.
Sim, são dois seres de séculos diferentes. Há ali uma pequena sugestão de qualquer coisa que os aproxima, um entrelaçamento que talvez tenha acontecido, mas que não pode continuar, porque é um amor verdadeiramente impossível. Literariamente são os mais estimulantes. É uma história muito mais de obstinação e de platonismo do que de proximidade física e de sexo. Eu não queria ir por aí.
E porque não?
Espera-se que as mulheres escrevam sobre coisas íntimas. Não queria fazer isso. Talvez a pensar um pouco no que Bergman diz, que nunca filmaria alguém a fazer amor ou a rezar. Não me sinto capaz de escrever uma cena dessas, íntima, sem cair no cliché. E não me queria nada expor... Acho que já há muitas coisas minhas aí.
Na Eugénia, a jornalista?
Sim, algumas. É inevitável se calhar. A começar pelo pronome (risos), um "eu" que me desmascara (risos). Aquela não sou eu, mas podia ter-me ocultado melhor. Ela também é jornalista, embora de televisão. No início era suposto ser apenas uma jornalista frívola que não se interessa nada pelo que está a fazer, mas a personagem acaba por crescer e ganhar uma dimensão quase paralela à de Joaquim.
O tal cliché do escritor que diz que a personagem lhe escapou?
Se calhar os escritores gostam de tornar o processo mais misterioso, mais romantizado. Mas não posso dizer isso. Acho que tive sempre bastante controlo sobre ela.
O livro está cheio de contágios da música, do cinema, de outros livros...
Deixei-as estar. Não fugi deles. Assumi-os. Temi que as pessoas achassem pretensioso. Lá está está, é um risco.
Como foge à auto-censura?
Agradecendo poder escapar à standartização da escrita que é cada vez mais igual, sobretudo no jornalismo. Posso fazer aquilo que posso e isso é uma liberdade assustadora, uma sensação de abismo. Dá vertigens. Estive cheia de inseguranças até à última hora. Cheguei a pensar que se calhar era melhor usar um pseudónimo e não assumir, mas era esquisito, uma ideia estapafúrdia. Não mostrei o livro a ninguém. Foi um acto que mantive secreto.
Nem disse que estava a escrever?
Não. Mostrei um capítulo ao meu filho mais velho. Mostrei uma parte inicial à Maria do Rosário [editora] que me disse "avança" e me deu logo uma segurança.
Não mostrou ao seu pai [o escritor Mário de Carvalho]?
Mostrei as primeiras páginas. E depois o final para ver se havia algum erro grosseiro.
Qual foi a reacção?
Ele não se coíbe de fazer críticas severas. Quando não gosta fica bastante feroz. Se calhar é um tique familiar. Não somos muito exuberantes na manifestação das nossas emoções. Disse: "gosto". Foi um alívio. Deu-me alguma segurança.
Sente-se de alguma forma uma herdeira dele?
Não me atrevo a fazer comparações. O meu pai está noutra galáxia. Não tem nada a ver com este meu livro. Mas o que me inspira, na verdade, são as palavras. Gosto de ver a genealogia das palavras e de encontrar palavras novas.
Também escreve com dicionário por perto?
Ah, sim. Gosto imenso de dicionários. A ideia de encontrar a palavra exacta é muito importante e vou atrás dela. É talvez onde me empenho mais. Outra coisa que acho muito importante é escrever debaixo de uma emoção. Não digo que seja preciso viver as emoções sobre as quais estou a escrever porque seria dar em maluco. Acho que não se deve escrever de forma neutral. Para mim a forma mais rápida de ter ou de me provocar uma emoção é ouvir música ou ler poesia. Desencadeia qualquer coisa.
Quando estava a escrever criou uma imagem de quem a poderia ler?
Não. Uma vez o Lobo Antunes disse-me uma coisa numa entrevista que achei muito interessante. Ele disse-me que há livros que falam e livros que ouvem. Que os livros que falam são os maus e os que ouvem são os bons.
Se perguntar em que categoria coloca o seu...
Gostava que o meu fosse um livro que ouvisse.
Este é um livro ditado pela memória.
Sim, queria que fosse. Por isso é um livro quase sem diálogo. A ideia era essa, contar uma história como se fosse em pensamento. Derivar. Pensamos de uma forma caótica e por associação de ideias.
Conhece o Tarrafal?
Não. Não achei que fosse fundamental. Documentei-me, conheci muita gente que passou por lá. Tive o meu pai preso político. A minha normalidade era ter um pai preso. Eu ia escrever um romance, não um documento jornalístico. O jornalista que escreve é um estigma terrível, quase sempre associado a coisas de que não gosto nada. Já disse que neste livro não ha códigos, não há segredos nem há sombras. Nem sequer tentei fazer um romance histórico. O Carlos Drummond de Andrade disse que há livros que são feitos para preencher um espaço na estante. Obviamante não é o meu. Sinto-me um ser insignificante.
Mas a partir de agora, por exemplo, vai ser provável estar nas estantes ao lado do seu pai. Partilham o mesmo apelido literário.
Se eu os arrumasse por ordem alfabética... As minhas arrumações são loucas. Fiz um livro. Fico contente se as pessoas gostam, mas acho que está cheio de imperfeições.
Relê?
Evito, porque fico muito angustiada. Vejo coisas que acho que não devia ter feito, com erros de principiante.
Quer dizer quais?
Não, a ver se ninguém repara. (Risos). Tem muito do deslumbramento da liberdade. Há a ideia de que o bom livro é aquele que se reescreve. Não reescrevi nada. Talvez tenha retirado uma parte ou outra, mas não tive esse trabalho de depuramento. Escrevi o primeiro capítulo e fui por ali afora. Se o bom escritor é aquele que reescreve, então ainda não cheguei a essa fase. Ainda só escrevo. E essa coisa de usar várias linguagens, acho que é de principiante. Como um miúdo que de repente tem um espaço grande para brincar e quer experimentar tudo. Não fiz um daqueles livros que admiro, que quando se sacodem não sai de lá nada porque não há nada de acessório. Há aqui coisas que se abanasse podiam cair.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

CLUBE DE LEITURA - DEZEMBRO

Ontem, pelas 20 horas, decorreu a sessão do Clube de Leitura com aromas e sabores natalícios condimentados com poesias de Natal.

Sendo que a sessão era sobre Poesia de Natal, marcaram presença muitos poetas da língua portuguesa (David Mourão Ferreira, Vinicius de Morais, Fernando Pessoa, Francisco Manuel de Melo, alguns anónimos), que fizeram as delícias da noite e foram ainda ditas algumas poesias inéditas da autoria de elementos do grupo mais talentosos.

Bom Natal e Boas Leituras!

Um 2016 cheio de esperança e em companhia de "Que importa a fúria do mar” de Ana Margarida Carvalho. A sessão será no dia 28 de Janeiro, pelas 21h00

Até lá, BOAS FESTAS!

 
 
 
 
 
 






terça-feira, 1 de dezembro de 2015

LEITURA DE DEZEMBRO





Leitura indicada:
 Um poema de Natal (à escolha)

Destinatários:  público em geral

Data:  17 de dezembro 2015

Horário:  21h00  às 22h00

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

CLUBE DE LEITURA DE NOVEMBRO

Ontem, pelas 21 horas, decorreu mais uma sessão do Clube de Leitura com a abordagem do romance  "A noite das mulheres cantoras" de Lídia Jorge, obra que tem sido alvo de estudo nas universidades brasileiras.

Trata-se de um romance, de grande densidade poética, que nos conduz ao final dos anos oitenta, do século XX, com alguma contextualização histórica, mas também onde as relações sociais e universo psicológico são marcantes.  

É uma parábola social muito actual, em forma de monólogo, onde sobressaem a audácia, a idolatria e a construção do êxito (a qualquer preço) no mundo da música,  rica em dualidades como a cumplicidade e competitividade que envolve os personagens. Tal como na realidade, em que quase nada ou ninguém é como se nos apresenta, há sempre um lado obscuro que não conhecemos e devemos respeitar.

Segundo Miguel Real este romance "é um poderoso aguilhão da memória pessoal", porque quem vivenciou este período em Portugal pode-se rever e recordar a sépia, mas quem não o viveu, não deixa de ficar bem elucidada.

Um romance íntimo, envolvente, que faz pensar...

(...) Alguém já viu marcar um animal? O meu pai sempre anestesiava o gado, dizia que um ferro em brasa não lhe atingia o pêlo mas a alma. O meu pai acreditava que todos os animais tinham uma alma, e nunca tinha lido Aristóteles. Há saberes que passam directamente da superfície da terra para a nossa alma através das plantas dos nossos pés e nós julgamos que nos são dados pela Filosofia e pela Ciência. Não são. Aquele conhecimento era só dele. Do meu pai.  (pág. 277)









quarta-feira, 25 de novembro de 2015

LEITURA DE NOVEMBRO



Livro indicado: “A noite das mulheres cantoras” de Lídia Jorge

Destinatários:  público em geral

Data:  26 de novembro 2015

Horário:  21h00  às 22h00




Sinopse:
Há uma pergunta que percorre este romance de Lídia Jorge, da primeira à última página: Quantas vítimas se deixa pelo caminho para se perseguir um objectivo? A acção do romance decorre no final dos anos 80 do século XX e invoca um tema de inesperada audácia - o da força da idolatria e a construção do êxito - visto a partir do interior de um grupo, narrado 21 anos mais tarde, na forma de um monólogo. 
Como é habitual na obra da autora, a questão social é relevante - a força do todo e a aniquilação do indivíduo perante o colectivo são temas presentes neste livro. Mas aqui, tratando-se de um grupo fechado e dominado pela música, a parábola social submerge perante a descrição de um ambiente de grande envolvimento humano e de densidade poética. 
Servido por uma narrativa ao mesmo tempo rude e mágica, A Noite das Mulheres Cantoras propõe a quem o lê a história de seis figuras que passam a viver para sempre no nosso imaginário. 
A história de amor comovente que une as duas personagens principais, Solange de Matos e João de Lucena, é, por certo, um daqueles episódios que iluminam a realidade e tornam indispensáveis a grande literatura sobre a vida de hoje, com os ingredientes próprios da cultura dos nossos dias.

LÍDIA JORGE
Romancista, contista e autora de uma peça de teatro, Lídia Guerreiro Jorge nasceu em Boliqueime em 1946. 

Licenciada em Filologia Românica, foi professora liceal em Lisboa e em África – Angola e Moçambique – para onde partiu em 1970. Ali viveu o marcante ambiente da Guerra Colonial, que mais tarde descreveria no romance A Costa dos Murmúrios através da perspectiva de uma personagem feminina, a mulher de um oficial do exército português de serviço em Moçambique. 


De regresso a Lisboa continuou a actividade docente e, em 1980, publicou o romance O Dia dos Prodígios, que lhe valeu o Prémio Ricardo Malheiros, da Academia das Ciências de Lisboa. Esta sua primeira obra publicada deve um impulso à revolução de Abril de 1974: O Dia dos Prodígios constrói-se como uma alegoria do país fechado e parado que Portugal era sob a ditadura, permanentemente à espera de uma força que o transformasse. O romance teve grande impacto junto do público e da crítica e Lídia Jorge foi de imediato saudada como uma das mais importantes revelações das letras portuguesas e uma renovadora do nosso imaginário romanesco. 



A linguagem narrativa deste romance e do seguinte – O Cais das Merendas – remete para a atmosfera do realismo mágico, sobrepondo vários planos narrativos numa estrutura polifónica de onde se destacam personagens que adquirem uma dimensão metafórica, ou mesmo mítica. A autora tem entretanto vindo progressivamente a adoptar um tom mais realista, nomeadamente em O Jardim sem Limites, onde à pequena aldeia de Vilamaninhos, que simbolizava no seu primeiro romance o Portugal pequenino e arcaico, se substitui Lisboa, a metrópole europeia onde se cruzam todas as influências e se rarefazem identidades e territórios. Nos romances de Lídia Jorge, a condição sócio-cultural das personagens, sobretudo as femininas, reflecte-se em diálogos, testemunhos a que não é alheia a atenção que a autora dispensa à tradição oral, em relação directa com a crónica da nossa história recente, antes e depois da revolução. A sua peça para teatro (A Maçon) procura um tempo mais remoto, os primeiros anos da ditadura, para retratar a condição feminina imposta pela ideologia do Estado Novo e a perda de liberdades (também) por parte das mulheres. 



A par da actividade literária, Lídia Jorge foi professora convidada da Faculdade de Letras de Lisboa, actividade que interrompeu para desempenhar funções na Alta Autoridade para a Comunicação Social, entre 1990 e 1994. 



Os seus livros têm-lhe merecido variadíssimos prémios e estão traduzidos para diversas línguas.


Centro de Documentação de Autores Portugueses
05/2004


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

CLUBE DE LEITURA DE OUTUBRO - 3º ANIVERSÁRIO

Ontem, pelas 20 horas, decorreu mais uma sessão do Clube de Leitura da Biblioteca, desta vez abordando a obra "As intermitência da morte" de José Saramago.
Mas, ontem no Clube de Leitura também foi dia de comemoração.
"Terceiro era o aniversário…

E, mais uma vez, debaixo de algum céu, fomos noite de mulheres cantoras. Cantámos a alegria de ler, cantámos 32 serões onde fomos Jesus, budas ditosos, transparentes…no admirável mundo novo da leitura, do sorriso e da Amizade e brindámos aos nossos laços de família…

Terceiro era o aniversário…

As palavras cruzaram sabores à mesa ; as palavras trouxeram os escritores e fomos tantos… e sempre a metade maior!

Terceiro era o aniversário deste espaço-tempo-ser, Clube de Leitura, criança nascida por nós em nós, mulheres, que somos onda e cotovia, sem fim à vista, em noites de inverno, que viajarão sempre do cinzento ao azul celeste.

Terceiro era o aniversário e foi azul, muito azul o nosso menino, Clube de Leitura…

 Terceiro era o aniversário…"


C.M.