segunda-feira, 13 de agosto de 2018

CLUBE DE LEITURA - JULHO 2018


Ontem, pelas 21 horas, na Biblioteca Municipal, decorreu a sessão do Clube de Leitura de Julho, com a abordagem do livro "O fiel defunto" de Germano Almeida, Prémio Camões 2018.

Todos os livros publicados por Germano Almeida anteriores ao "O fiel defunto" eram obras cuja temática abordava a fome, a seca e a emigração.

Com esta obra o autor rompe com a seriedade e o elitismo na sua literatura e usa o humor, a sátira e uma ironia refinada, que nos remete a Eça de Queirós, escritor que o terá influenciado, assim como Jorge Amado e Gabriel Garcia Marquez.

Quando se pensava que estávamos perante uma obra dramática, com o assassinato violento de um prolífico escritor, que prometia ser uma saga policial e um momento de lamentações, eis que nos é apresentada uma sátira social, na qual é usado o escárnio e mal dizer, mas com algum carácter pedagógico.

A obra centra-se essencialmente na crítica ao poder político que passa a sobrevalorizar o escritor/artista praticamente só após a sua morte, mas também toda a sociedade cabo-verdiana se vê ali retratada, ou qualquer outra do mundo dito civilizado, pois são acontecimentos intemporais e transversais a todas.

A prosa é fluída, sobressaindo uma imaginação e criatividade prodigiosa, muito agradável de ler.

O autor leva-nos a Cabo Verde através dos seus usos e costumes, arquitetura, não faltando a gastronomia com a moreia frita e a doçaria típica, quando refere "...e lembrou-se de um bolo de chocolate de grande qualidade que a pastelaria Morabeza fabricava e de que Matilde se disse apaixonada".
Morabeza é nome de pastelaria e nome de bairro do Mindelo, mas tem um significado próprio, significa afabilidade, amabilidade, gentileza, posturas que melhor definem o espírito e a cultura cabo-verdiana em que até a ironia é muito mais suave.


Marcelo Rebelo de Sousa visitou o Mindelo em abril de 2017 e disse, num discurso aí proferido: 

 “Onde há morabeza, há saudade. Há saudade, porque há morabeza”.

Com tanta informação sobre Cabo Verde ficou a vontade de um dia, mergulhar e deambular por lá  e quem sabe cruzar com Germano Almeida, que tanto nos divertiu.



 



quarta-feira, 4 de julho de 2018

CLUBE DE LEITURA - JULHO



Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

 Livro indicado: "O fiel defunto" de Germano Almeida

Sinopse: Toda a gente foi apanhada de surpresa, pelo que ninguém tentou impedir o inesperado assassinato do mais conhecido e traduzido escritor das ilhas, breves momentos antes do início da cerimónia de apresentação do que acabou por ser a sua última obra. E, no entanto, nesse dia o vasto auditório transbordava de uma festiva multidão de fãs e outros curiosos, todos impacientes ante a expectativa de ter um autógrafo no já muito badalado livro que se preparavam para adquirir.

De modo que a ninguém terá passado pela cabeça que um evento daquela natureza, sempre aguardado com geral e grande ansiedade, poderia vir a ter um desfecho tão inesperado quanto brutal, especialmente tendo em conta a qualidade das pessoas envolvidas na tragédia. 
Data: 26 julho 2018


Germano Almeida nasceu na ilha da Boa Vista em 1945. Licenciou-se em Direito na Universidade Clássica de Lisboa. Vive em São Vicente onde, desde 1979, exerce a profissão de advogado.
Publica as primeiras estórias na revista Ponto & Vírgula, assinadas com o pseudónimo de Romualdo Cruz. Estas estórias foram publicadas em 1994 com o título A Ilha Fantástica, que, juntamente com A Família Trago, 1998, recriam os anos de infância e o ambiente social e familiar na ilha da Boa Vista. Mas o primeiro romance do autor foi O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, em 1989, que marca a rutura com os tradicionais temas cabo-verdianos.
O Meu Poeta, de 1990, Estórias de Dentro de Casa, de 1996, A Morte do Meu Poeta, de 1998, As Memórias de Um Espírito, de 2001 e O Mar na Lajinha, de 2004, formam o que se pode considerar o ciclo mindelense da obra do autor.

Mais recentes são os livros A Morte do Ouvidor, de 2010, e Do Monte Cara Vê-se o Mundo, de 2014, Regresso ao Paraíso, 2015 e O Fiel Defunto, 2018 também editados na Caminho.

Tem obras publicadas no Brasil, França, Espanha, Itália, Alemanha, Suécia, Holanda, Noruega e Dinamarca, Cuba, Estados Unidos,
Bulgária, Suíça.

Em 2018 vence o Prémio Camões.  

Saiba mais em:






sexta-feira, 29 de junho de 2018

CLUBE DE LEITURA – JUNHO


Teve ontem lugar, na Biblioteca Municipal, a sessão mensal do “Clube de Leitura” com a análise e discussão da obra "Só resta o amor" do espanhol Agustín Fernández Paz.

O autor é natural de Vilalba, Lugo, Galiza, nasceu em 1947 e tem já uma vasta obra largamente premiada.

Trata-se de um conjunto de 11 contos de escrita acessível, sem grande riqueza estilística, agradáveis de ler, com belas descrições da floresta, dos cheiros, com alguns momentos líricos e excertos de literatura espanhola e universal, ou seja, um livro com outros livros dentro.

O autor acredita na força das palavras para a mudança e que os livros são “imprescindíveis para nos ajudar a sonhar e a viver”.

A temática é o amor, tal como o título sugere, mas, ao ler a primeira citação de Orhan Pamuk, antes do início do primeiro conto em que este diz, "quando me apercebo que vamos passar por este mundo sem deixar rasto depois de levarmos umas vidas estúpidas, compreendo com raiva que na vida só resta o amor" ou "Todas as recordações são sulcos de lágrimas" do cineasta Wong Kar Wai, percebemos que as histórias de amor são também de desamor, de encontros e desencontros e quase sempre com destinos de sofrimento.

Esta melancolia presente na obra, remete-nos a Camões e ao seu poema “amor que é fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente”.

Quase todos os contos são passados durante a ditadura de Franco e isso reflete-se nas histórias, nas quais é visível uma grande falta de liberdade, falta de informação através dos livros e do cinema, prevalecendo a repressão e os preconceitos, fatores que, consequentemente, condicionam a vida das pessoas.

Há uma riqueza temática com enormes variações nestes contos, uns são excêntricos, outros cruéis, esotéricos, de suspense e crime.
 
No conto "Estranha lucidez", o canídeo descreve  a sua nostalgia pós-mortem desta forma:  "Era o único momento do dia em que encontrava a cadela castanha que cheirava tão bem. Nalgumas manhãs, dependendo se nos soltavam ou não, podíamos cheirar-nos sem que ninguém nos interrompesse, e até dar algumas corridas pelo passeio. Mas eram momentos curtos, ou assim me pareciam, como se na vida os instantes felizes se apresentassem em doses mínimas que sabem sempre a pouco".

Por isso, é fundamental aproveitar os instantes felizes da vida e o prazer da leitura é um deles.

Boas Leituras!