sábado, 31 de outubro de 2026

CLUBE DE LEITURA - OUTUBRO 2026

Na passada quinta-feira, dia 26 de outubro, pelas 21 horas, decorrreu a sessão do Clube de Leitura para a abordagem da obra "Para sempre" de Vergílio Ferreira (1916-1996),  à qual foram atribuídos o Prémio Pen Clube 1984, Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários 1984 e Prémio Literário do Município de Lisboa 1983.

Vergílio Ferreira nasceu em Melo (Gouveia) a 26 de janeiro de 1916, e faleceu em Lisboa a 1 de março de 1996.

Em 1920, os pais emigram e Vergílio Ferreira é entregue, juntamente com os seus irmãos, aos cuidados de tias maternas.

Em 1922, com dez anos de idade, ingressa no Seminário do Fundão onde permanecerá até 1932. Em 1940, conclui a licenciatura em Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Tendo sido professor do ensino secundário, foi como escritor que se distinguiu no panorama da literatura portuguesa a partir dos anos quarenta do século XX.

Com uma obra que se inscreve, por um lado, no Neorealismo (Manhã submersa, 1955), e, por outro lado, no Existencialismo (Aparição, 1959), cultivou intensamente o romance, o ensaio e o diário, mas também o conto.

"Para sempre" publicada em 1983, faz parte de uma uma nova fase do escritor e surge na sequência do derrube do Estado Novo, em que as preocupações políticas desaparecem da sua obra, voltando-se novamente para a vertigem da morte, tema que lhe causa insónias e o obriga a questionar os padres e a dar a mão à palmatória. 

É a vertigem da morte, do amor e da luta constante entre ambos, tentando-se anular mutuamente.

"Não Morras!" grita em Para sempre. "Sê calmo, Estás só. Tudo findou. Mas eu não quero! Sê discreto, na inteireza da tua solidão. Oh, relembrar ao menos, reviver o fugitivo instante do que foi perfeito, antes de tudo o que corrompeu."

É uma ode à consciência ao sentimento físico da existência e o sensorial entrelaçado com o racional, verdadeiro tratado de história da literatura portuguesa, atravessando uma fase neorealista, uma racionalista, um encanto existencialista, um despertar para o problema da finitude e a perecibilidade do corpo humano, a descoberta do amor, como boia de salvação e sentimento de consumação da vida. E, por último, o reencontro com a paz perdida.

Na obra encontramos uma grande variedade de reflexões, que são uma sátira à época, mas que permanecem, surpreendentemente, atuais, como podem apreciar neste pequeno excerto.

"...A dos políticos salvadores da humanidade num histerismo com receitas prontas a aviar e a defesa aos guinchos da liberdade e da autoridade, que são iguais mas muitíssimo diferentes, porque a defesa da liberdade obriga a defendê-la dos que são contra a liberdade e exige pois uma autoridade de ferro para defendê-la, da propriedade e do ideal comunitário e comunitarismo em escalões, da gestão, autogestão, e semiautogestão, do direito à informação e que tem de ser por isso  desinformação por virtude do direito à informação e que tem de ser por isso inbformação correcta e deixa assim de ser diteito à informação que todavia ainda é esse direito mas melhorado embora não seja já direito à informação por não ter esse direito, do direito à cultura que é só à boa cultura porque a má cultura é contra a boa e já não é cultura e precisa de ser afastada para a salvaguarda do povo que gosta de má cultura pelo vício intrínseco de ser povo que precisa portanto de ser defendido contra si para não ser ele mas por aqueles que defendem a boa e podem defendê-la por virtude de serem mandatados pelo povo que não gosta de boa  mas da outra, do direito ao trabalho que não é o dever de trabalhar, excepto quando os que defendem esse direito, mandatados pelos que não têm esse direito, conquistam o direito de imporem esse direito que é então um dever e os que nao tinham esse direito já não querem, porque o direito e o dever estão cheios de antagonismos, e a defesa da democracia popular da democracia parlamentar e da democracia orgânica, da república da monarquia da oligarquia.

- Estai calados, estupores!

No final da sessão, parabenizou-se o Clube de Leitura pelo seu 14º aniversário, teceram-se elogios à visita guiada do dia 3 de outubro, à casa de Vergílio Ferreira, em Melo, Gouveia e ao evento que aí decorreu e do qual pudemos disfrutar durante todo o dia.

Um grande bem-haja a todos os membros do Clube pela sua participação.




Correspondência trocada entre João da Silva Correia e Vergílio Ferreira
 a 18 de fevereiro de 1963 
in "João da Silva Correia, o escritor inquieto", 2025










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