domingo, 1 de novembro de 2026

CLUBE DE LEITURA - NOVEMBRO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 26 de novembro, pelas 21h00.

O livro selecionado será "As primas" de Aurora Venturini.

Sinopse: A obra-prima de uma escritora catapultada para a fama literária mundial aos 85 anos. A história de uma família em que as mulheres procuram fugir à norma, com ecos de Lucia Berlin, Shirley Jackson e Carson McCullers.

Na cidade argentina de La Plata, nos anos de 1940, conhecemos Yuna e Petra, duas primas que pertencem à mesma família disfuncional, precária e destinada à desgraça. Pela voz de Yuna, vemos um universo tortuoso de mulheres abandonadas à sua sorte, a braços com a pobreza, a deficiência, o delírio fantasmagórico e a pressão social.

Para se evadir do cerco das histórias de ameaças, violações e homicídios, Yuna recorre à sua imaginação artística: a cada episódio de violência, pinta uma nova tela. Vendo na arte uma fuga ao estropiamento familiar, Yuna lança sobre o seu mundo um olhar selvático — ora cândido e perspicaz, ora violento e ensimesmado — e protagoniza uma história que desafia todas as convenções literárias.

Aurora Venturini poderia ser uma das peculiares personagens dos seus romances, já que o seu percurso ficou marcado pelo fait-divers de ter vencido um concurso literário para novos talentos quando já tinha escrito dezenas de livros e se aproximava do fim da vida.

Entre o romance de formação, a delirante autobiografia, o divertimento literário e a radiografia de uma época, As Primas é uma obra que celebra, ao mesmo tempo, as dimensões universal e privada da literatura, revelando a desconcertante originalidade de uma autora que ousa colocar perguntas quase sempre cuidadosamente mantidas em silêncio.

Quem é Aurora Venturini?




Nasceu em La Plata, Argentina, em 1921. Foi escritora, tradutora e professora.
Licenciou-se em Filosofia e Ciências da Educação.
Trabalhou no Instituto de Psicología y Reeducación del Menor, onde se tornou amiga íntima de Eva Perón.
Em 1948, recebeu das mãos de Jorge Luis Borges o Prémio Iniciación, pelo livro de poesia El solitario.
Exilou-se em Paris após o golpe de Estado de 1955, e viveu nesta cidade cerca de vinte e cinco anos, privando com figuras como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Eugène Ionesco, Juliette Gréco e Albert Camus.
Traduziu e escreveu sobre poetas franceses como Lautréamont e Rimbaud.
Garantia não saber estrelar um ovo nem limpar a casa, mas escrevia diariamente, sempre à máquina ou à mão, pois desconfiava de computadores. É autora de mais de trinta livros, embora só no final da vida lhe tenha sido reconhecido um incontornável talento literário.
Morreu em Buenos Aires em 2015.


sábado, 31 de outubro de 2026

CLUBE DE LEITURA - OUTUBRO 2026

Na passada quinta-feira, dia 26 de outubro, pelas 21 horas, decorrreu a sessão do Clube de Leitura para a abordagem da obra "Para sempre" de Vergílio Ferreira (1916-1996),  à qual foram atribuídos o Prémio Pen Clube 1984, Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários 1984 e Prémio Literário do Município de Lisboa 1983.

Vergílio Ferreira nasceu em Melo (Gouveia) a 26 de janeiro de 1916, e faleceu em Lisboa a 1 de março de 1996.

Em 1920, os pais emigram e Vergílio Ferreira é entregue, juntamente com os seus irmãos, aos cuidados de tias maternas.

Em 1922, com dez anos de idade, ingressa no Seminário do Fundão onde permanecerá até 1932. Em 1940, conclui a licenciatura em Filologia Clássica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Tendo sido professor do ensino secundário, foi como escritor que se distinguiu no panorama da literatura portuguesa a partir dos anos quarenta do século XX.

Com uma obra que se inscreve, por um lado, no Neorealismo (Manhã submersa, 1955), e, por outro lado, no Existencialismo (Aparição, 1959), cultivou intensamente o romance, o ensaio e o diário, mas também o conto.

"Para sempre" publicada em 1983, faz parte de uma uma nova fase do escritor e surge na sequência do derrube do Estado Novo, em que as preocupações políticas desaparecem da sua obra, voltando-se novamente para a vertigem da morte, tema que lhe causa insónias e o obriga a questionar os padres e a dar a mão à palmatória. 

É a vertigem da morte, do amor e da luta constante entre ambos, tentando-se anular mutuamente.

"Não Morras!" grita em Para sempre. "Sê calmo, Estás só. Tudo findou. Mas eu não quero! Sê discreto, na inteireza da tua solidão. Oh, relembrar ao menos, reviver o fugitivo instante do que foi perfeito, antes de tudo o que corrompeu."

É uma ode à consciência ao sentimento físico da existência e o sensorial entrelaçado com o racional, verdadeiro tratado de história da literatura portuguesa, atravessando uma fase neorealista, uma racionalista, um encanto existencialista, um despertar para o problema da finitude e a perecibilidade do corpo humano, a descoberta do amor, como boia de salvação e sentimento de consumação da vida. E, por último, o reencontro com a paz perdida.

Na obra encontramos uma grande variedade de reflexões, que são uma sátira à época, mas que permanecem, surpreendentemente, atuais, como podem apreciar neste pequeno excerto.

"...A dos políticos salvadores da humanidade num histerismo com receitas prontas a aviar e a defesa aos guinchos da liberdade e da autoridade, que são iguais mas muitíssimo diferentes, porque a defesa da liberdade obriga a defendê-la dos que são contra a liberdade e exige pois uma autoridade de ferro para defendê-la, da propriedade e do ideal comunitário e comunitarismo em escalões, da gestão, autogestão, e semiautogestão, do direito à informação e que tem de ser por isso  desinformação por virtude do direito à informação e que tem de ser por isso inbformação correcta e deixa assim de ser diteito à informação que todavia ainda é esse direito mas melhorado embora não seja já direito à informação por não ter esse direito, do direito à cultura que é só à boa cultura porque a má cultura é contra a boa e já não é cultura e precisa de ser afastada para a salvaguarda do povo que gosta de má cultura pelo vício intrínseco de ser povo que precisa portanto de ser defendido contra si para não ser ele mas por aqueles que defendem a boa e podem defendê-la por virtude de serem mandatados pelo povo que não gosta de boa  mas da outra, do direito ao trabalho que não é o dever de trabalhar, excepto quando os que defendem esse direito, mandatados pelos que não têm esse direito, conquistam o direito de imporem esse direito que é então um dever e os que nao tinham esse direito já não querem, porque o direito e o dever estão cheios de antagonismos, e a defesa da democracia popular da democracia parlamentar e da democracia orgânica, da república da monarquia da oligarquia.

- Estai calados, estupores!

No final da sessão, parabenizou-se o Clube de Leitura pelo seu 14º aniversário, teceram-se elogios à visita guiada do dia 3 de outubro, à casa de Vergílio Ferreira, em Melo, Gouveia e ao evento que aí decorreu e do qual pudemos disfrutar durante todo o dia.

Um grande bem-haja a todos os membros do Clube pela sua participação.




Correspondência trocada entre João da Silva Correia e Vergílio Ferreira
 a 18 de fevereiro de 1963 
in "João da Silva Correia, o escritor inquieto", 2025








sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CLUBE DE LEITURA - OUTUBRO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 29 de outubro, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Para sempre" de Vergílio Ferreira.





Sinopse: Em Para Sempre, «no final de uma vida, entrando no seu epílogo, um homem já sem destino para cumprir medita sobre o seu passado e o seu futuro, no regresso a uma casa vazia onde passou parte da sua infância, povoada de fantasmas que evocam os momentos-chave da sua existência. Recheado de flashbacks para o passado e para o futuro (!), a antevisão, real e com todos os detalhes, da degradação da sua velhice e do seu funeral urge em Paulo a derradeira tentativa de procura da explicação de um sentido para a vida».

«Contínua e cada vez mais solitária viagem em volta do único ponto do seu universo: o da sua infância como monólogo inacabado e inacabável em torno do milagre ardente e pavoroso da sua própria aparição no meio do mundo - montanha, estrelas, água, vento que é uma resposta antes de ser desesperada e inútil interrogação.» (Eduardo Lourenço)

Quem é Vergílio Ferreira?



Nasceu em 1916, em Melo (Gouveia), e morreu em 1996 em Lisboa. Estudou no Seminário do Fundão, licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra e foi professor do ensino secundário. É um dos maiores romancistas e ensaístas portugueses do século XX. É o autor de romances tão celebrados como Manhã Submersa (1954) e Aparição (1959), com preocupações de natureza metafísica e existencial. 
A sua prosa, que entronca na tradição queirosiana, é uma das mais inovadoras da literatura portuguesa. Temas como a morte, o mistério, o amor, o sentido do universo, o vazio de valores ou a natureza da arte são recorrentes na sua produção literária, tanto de ficção como de ensaio. 
Das suas últimas obras destacam-se Para Sempre (1983), Até ao Fim (1997) e Na Tua Face (1993). Recebeu o Prémio Camões em 1992.

CLUBE DE LEITURA - SETEMBRO 2026

Na passada quinta-feira, dia 24 de setembro, pelas 21 horas, decorrreu a sessão do Clube de Leitura para a abordagem da obra "Flores" de Afonso Cruz.

"Flores", de Afonso Cruz, é um romance publicado em 2015 que aborda temas como a memória, a velhice, a solidão, a amizade e o amor, convidando o leitor a refletir sobre a fragilidade e a complexidade das relações humanas.

A história desenrola-se sobretudo em torno da relação entre Mr. Ulme, um homem idoso que perde a memória, e o narrador que, ao tomar conhecimento da sua história, se vê levado a questionar também a sua própria vida, marcada por uma crise conjugal que o conduz à separação e pela dificuldade em comunicar com a sua própria filha. Através desta relação, Afonso Cruz constrói uma narrativa profundamente humana, na qual valoriza a amizade, a empatia e a capacidade de cuidar dos outros.

O romance é construído através de episódios, reflexões e histórias que se cruzam, contribuindo para a reconstituição do passado do Sr. Ulme, através de uma narrativa que nem sempre segue um percurso linear.

A escrita de Afonso Cruz constitui igualmente um dos pontos fortes do livro. O autor utiliza uma linguagem simples, mas, simultaneamente, poética e cheia de significado. Poderíamos enumerar diversas passagens do livro. Contudo, destacamos duas particularmente relacionadas com o quotidiano e que apresentam um significado universal.

“Toco levemente os lábios dela e sabe-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama.”  (página 25)

“As mães são fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso trata-a bem.” (página 80)

Quanto ao título do livro, “Flores” pode ser entendido de forma simbólica. As flores remetem para a beleza e, simultaneamente, para a passagem do tempo.

Ao longo da obra, o autor, remete-nos algumas vezes para referências musicais, o que resulta numa agradável companhia durante a leitura.

 

Nas páginas 128/129, o narrador encontra-se com Mostovol na Ginjinha sem Rival e Mostovol pede um "alexandrino". Esta bebida não existe, o que existe é o licor Eduardino. É um trocadilho do autor.

 

Quanto à "banda sonora" do livro, referindo o tema "Autumn Leaves".

Na página 149, o autor fala do tema "One More Kiss, dear" numa versão dos nossos Clã.

https://share.google/A6gkizR7visBiZ06f

 

"blind blake diddie wa diddie com legendas em inglês" https://share.google/hb6P3lcoulBippOt8

Diddie wa Diddie", de Blind Blake, gravada em 1929.

Pág 83/84:

-Querem ouvir o quê?-perguntou ele.

A Beatriz respondeu "blues".

-Pode ser Blind Blake, Beatriz?

-Pode-disse ela.

 

"A música, antes dele, era como limpar a casa sem a possibilidade de chegar àquela área debaixo do sofá ou a certos recantos." Pág. 182

https://music.youtube.com/@CharlieParkerOfficial

 

"Estava com a Sara, a enfermeira, a ouvir e a comentar o virtuosismo de Miles Davis ou a criticar o pop." pág 205

https://share.google/EvlIYu0W2EGsDU5zK

 

Segue-se " Ain't no sunshine when she's gone", canção de Bill Withers, de 1971. Cf. pág 216: "Vamos fazer um baile no terraço, pede aos músicos da orquestra Mnor que toquem o fado do cansaço e o Ain't no sunshine when she's gone e mais outras, tenho de fazer uma lista..."

Ain't No Sunshine https://share.google/MSJLkpGMFVOaA0Alk

 

"I put a spell on you". Esta canção é de Screamin ' Jay Hawkins e foi gravada em 1956. Existem muitas versões, mas esta é a original. Cf. pág 265: "Voltemos a Screamin ' Jay Hawkins. Era um homem que gostava de se apresentar vestido de leopardo, com ossos a atravessarem-lhe o nariz. Ficou muito conhecido por I put a spell on you. Põe a tocar, Beatriz - disse o grego."

"i put a spell on you screamin jay hawkins" https://share.google/KXU3i8YNosrYwSYOW

Da pesquisa realizada por alguns dos membros do Clube, resultou um brinde à obra de Afonso Cruz com uma Ginjinha e uma banda sonora. 










quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CLUBE DE LEITURA - SETEMBRO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 24 setembro, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Flores" de Afonso Cruz.


Sinopse: Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos.

Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome.
«Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»

Quem é Afonso Cruz? É escritor e artista multidisciplinar (ilustração, fotografia e música), e, nos tempos livres, ainda faz cerveja. Trabalhou como cineasta durante mais de uma década.
Tem publicados mais de 40 livros, traduzidos em mais de 20 línguas e nos mais variados géneros literários, desde conto, romance, poesia, ensaio, teatro, foto-texto, literatura de viagens e literatura para a infância. Em menos de 20 anos de carreira literária, já foi distinguido com importantes prémios nacionais e internacionais, entre os quais se destacam: o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, o Prémio SPA para Melhor Livro Infantil (2011) e o Prémio SPA para Melhor Livro de Ficção Narrativa (2019), o Prémio Liter.


ário Maria Rosa Colaço, o Prémio da União Europeia para a Literatura, o Prémio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil e o Prémio Ibérico Álvaro Magalhães.

Assina, desde 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, Artes e Ideias, sob o título «Paralaxe», e tem uma coluna de opinião no Sapo.





domingo, 2 de agosto de 2026

CLUBE DE LEITURA - JULHO 2026

Na passada quinta-feira, dia 30 de julho, pelas 21 horas, decorrreu a sessão do Clube de Leitura para a abordagem da obra "A visão das plantas" de Djaimilia Pereira de Almeida, escritora de origem angolana com muito sucesso em todo o mundo, em que quase todas as suas obras têm sido premiadas.

Inspirada no livro “Os pescadores” de Raúl Brandão, Djaimilia Pereira de Almeida apresenta-nos o Capitão Celestino de volta à casa materna, após uma longa carreira como negreiro, ao longo da qual cometeu as maiores atrocidades. A casa, há muito abandonada, teima em existir, mas é no quintal que Celestino encontra a razão de ser dos seus dias.

Na ânsia de expiar o passado criminoso que o persegue, incapaz de qualquer emoção,  livra-se do que resta da família…

Qual asceta penitente, Celestino comunga com a natureza para morrer.

Em contraste com a casa, o quintal exuberante torna-se na razão de ser dos seus dias…

Ignorando a vizinhança e evitando o padre, que o quer confessar a todo o custo, Celestino embrenha-se a fundo naquela missão, confundindo-se com os elementos da natureza até “deixar de ser gente”.

Esse seu desapego às coisas do mundo manifesta-se no isolamento, mas também na recusa de qualquer interação, salvo exceções muito pontuais, em que inventa histórias para amedrontar as crianças.

Nos momentos de loucura, febril, o negreiro recorda atrocidades cometidas enquanto pirata e quando “revê” a menina holandesa, ainda tem ganas de dar uso à navalha.

Mais velho, mais fraco e quase cego, Celestino torna-se escravo das plantas. 

Fecha-se, definha, apenas acompanhado pelos fantasmas que teimavam em voltar à noite… Perturbado divaga, sonha, mas sem nunca demonstrar arrependimento ou remorsos pelas atrocidades cometidas enquanto negreiro, inviabilizando assim qualquer redenção.

Perto do fim, o padre visita-o… as crianças deixam de aparecer… A degradação física agudiza-se, os momentos de sonambulismo e as visões fantasmagóricas aumentam…

Por caridade, numa rara visita, o primo Manuel ainda o leva a ver o mar, mas Celestino já não tem noção de onde está …  O fim precipita-se… revê nas águas o reflexo da sua cuidadora holandesa, caminhando para ele de olhos vendados…

À saída da casa de Celestino, a visão das plantas revela-se, pela última vez, em todo o seu esplendor ao padre Alfredo, tal aleluia pela passagem da alma do capitão.

Luísa Correia (membro do Clube de Leitura)










segunda-feira, 29 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA - JULHO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 30 de julho, pelas 21h00.

O livro selecionado será "A visão das plantas" de Djaimilia Pereira de Almeida.



Sinopse: Foi ao ler Os Pescadores de Raul Brandão que Djaimilia Pereira de Almeida encontrou a frase que haveria de inspirar anos depois A Visão das Plantas.

Raul Brandão fala de personagens que conheceu quando era levado pela mão até ao colégio. Entre eles, estava o capitão Celestino: "[T]endo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. Falava pouco. […] A sua vida anterior fora misteriosa e feroz. De uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil. Outras coisas piores se diziam do capitão Celestino... Mas o que eu sei com exactidão a seu respeito é que para alporques de cravos não havia outro no mundo."


Quem é Djaimilia Pereira de Almeida?



Djaimilia Pereira de Almeida é autora de vários livros, entre os quais Luanda, Lisboa, Paraíso, As Telefones, Três Histórias de Esquecimento, Ferry e Toda a Ferida É Uma Beleza, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2024. Os seus livros e ensaios receberam vários prémios, incluindo o Prémio Oceanos, e estão traduzidos em dez línguas. Em 2023, Djaimilia recebeu o Prémio FLUL Alumni, atribuído pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou. Em 2025, recebeu o Prémio Vergílio Ferreira, atribuído pela Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra literária. Ensinou na New York University. Escreve na Quatro Cinco Um e no Observador. Nasceu em Luanda.