Na passada quinta-feira, dia 30 de julho, pelas 21 horas, decorrreu a sessão do Clube de Leitura para a abordagem da obra "A visão das plantas" de Djaimilia Pereira de Almeida, escritora de origem angolana com muito sucesso em todo o mundo, em que quase todas as suas obras têm sido premiadas.
Inspirada no livro “Os
pescadores” de Raúl Brandão, Djaimilia Pereira de Almeida apresenta-nos o
Capitão Celestino de volta à casa materna, após uma longa carreira como
negreiro, ao longo da qual cometeu as maiores atrocidades. A casa, há muito
abandonada, teima em existir, mas é no quintal que Celestino encontra a razão
de ser dos seus dias.
Na ânsia de expiar o
passado criminoso que o persegue, incapaz de qualquer emoção, livra-se do que resta da família…
Qual asceta penitente,
Celestino comunga com a natureza para morrer.
Em contraste com a
casa, o quintal exuberante torna-se na razão de ser dos seus dias…
Ignorando a vizinhança
e evitando o padre, que o quer confessar a todo o custo, Celestino embrenha-se
a fundo naquela missão, confundindo-se com os elementos da natureza até “deixar
de ser gente”.
Esse seu desapego às
coisas do mundo manifesta-se no isolamento, mas também na recusa de qualquer
interação, salvo exceções muito pontuais, em que inventa histórias para
amedrontar as crianças.
Nos momentos de
loucura, febril, o negreiro recorda atrocidades cometidas enquanto pirata e
quando “revê” a menina holandesa, ainda tem ganas de dar uso à navalha.
Mais velho, mais fraco
e quase cego, Celestino torna-se escravo das plantas.
Fecha-se, definha,
apenas acompanhado pelos fantasmas que teimavam em voltar à noite… Perturbado
divaga, sonha, mas sem nunca demonstrar arrependimento ou remorsos pelas
atrocidades cometidas enquanto negreiro, inviabilizando assim qualquer
redenção.
Perto do fim, o padre
visita-o… as crianças deixam de aparecer… A degradação física agudiza-se, os
momentos de sonambulismo e as visões fantasmagóricas aumentam…
Por caridade, numa rara
visita, o primo Manuel ainda o leva a ver o mar, mas Celestino já não tem noção
de onde está … O fim precipita-se… revê
nas águas o reflexo da sua cuidadora holandesa, caminhando para ele de olhos
vendados…
À saída da casa de
Celestino, a visão das plantas revela-se, pela última vez, em todo o seu
esplendor ao padre Alfredo, tal aleluia pela passagem da alma do capitão.
Luísa Correia (membro do Clube de Leitura)








