Na passada quinta-feira, dia 29 de janeiro, pelas 21h00, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura, para a abordagem e discussão da obra "Autobiografia não escrita de Martha Freud" de Teolinda Gersão.
Nesta "Autobiografia", T. Gersão explica numa nota inicial que se baseou, essencialmente em documentos, a fonte consiste nas cartas trocadas entre Sigmund Freud e Martha Bernayss, escritas durante o seu noivado, entre 1882 e 1886 e publicadas pela primeira vez em quatro volumes, entre 2011 e 2019. Até 2011 as cartas não eram conhecidas. Utilizou também cartas trocadas entre Freud e outras pessoas.
Assim, a narradora é Martha, autora de uma autobiografia que nunca escreveu, alegando que a filha mais nova, Anna, nunca o teria permitido, porque controlava ciosamente todas as publicações sobre o pai, sendo a defensora mais feroz e intransigente do seu legado.
A narração começa após a morte de Freud, em Londres, em 1939, não se sabendo exatamente em que ano em que Martha faleceu (1951?).
Nesta troca de correspondência entre estas duas personagens históricas, não se aborda a obra científica, "Não escrevo ao homem da ciência, mas ao homem que me fez sua noiva", mas sim o percurso de vida de duas personalidade fortes, mas muito diferentes, a relação entre ambos e com outras personagens incontornáveis das suas vidas.
Assim, nesta obra somos confrontados com Freud, na perspectiva da sua esposa ao longo da sua vida em comum. Freud revela-se-nos um ser estranho, egoísta, narcisista, egocêntrico, manipulador, frio, calculista, ciumento, obssessivo, consumidor de cocaína, etc.
Martha, no capítulo 4º, explica porque se apaixonou por ele: "Creio que foi por ele me atrair fisicamente e o sentir superior a mim que me apaixonei", era "um homem mais alto, mais inteligente, culto e forte do que eu, de aparência sensual e olhar perscrutador e magnético atraía-me irresistivelmente". Também no capítulo 20 confessa que "eu distinguia nele vários aspectos que me seduziram, como a imaginação poderosa, o seu amor pela literatura e a sua criatividade".
Dominador: "Pertences-me e vais mesmo ser como eu quero".(22/1/1882).
Recusou comparecer ao casamento de Eli, o irmão de Martha, com a sua própria irmã Anna com a seguinte frase " o dia chegará em que vingarei os meus que considero superiores aos teus" (22/10/1882)
"Há dois anos que luto com a ralé, que ora é Fritz, Max, Eli ou a mamã e não percebes que eu pertenço a uma espécie melhor e mais nobre de pessoas". (27/7/1884)
No capítulo 24, Martha confessa: "Éramos apenas 14 pessoas à mesa no almoço da boda", "o dinheiro era escasso e tínhamos de cortar o que não era essencial, mas Sigi ia todos os dias ao barbeiro e o guarda-roupa manteve-se impecável".
Quando nasceu a primeira filha Freud escreveu à sogra: "Estou terrivelmente cansado, como se tivesse sido eu a ter a criança".
Quanto aos doentes, Martha achava que Freud pouco se importava com a cura dos doentes, via-os mais como fonte de rendimento, porque a sua clientela era rica, excêntrica, desorientada. Lutava por duas coisas: nome e fortuna.
Mas Martha por vezes também se diminuiu em carta: "tens de me aceitar tal como sou, por vezes infeliz, um pouco burra, espirituosa e de natureza um pouco cordeirinha".
Afirma que "várias vezes me apeteceu deixá-lo, só que a alternativa mais provável para uma rapariga pobre e já bastante envelhecida (faria em julho, 26 anos), quando era habitual casar aos 20, o destino possível seria cuidar da minha mãe e apoiar na sua morte, entrar ao serviço de outra idosa (na melhor das hipóteses) como dama de companhia. E essa ainda era pior do que correr o risco e casar com Sigi".
Por outro lado Freud não rompeu o noivado porque precisava de resolver o "problema do casamento. Um homem notável e respeitado devia casar e ter filhos".
No capítulo 24, quando se refere à sua vida sexual, "Senti uma grande falta de ternura e carinho, como era expectável num homem selvagem, com o corpo cheio de cocaína". Freud tinha-lhe anunciado antes do casamento: "Ai de ti, minha princesa, quando eu chegar vais ver quem é mais forte, se uma jovem que não come o suficiente ou um homem selvagem, com o corpo cheio de cocaína."
Mais tarde leria, casualmente, uma afirmação sua: "As mulheres deviam considerar os seus órgãos genitais como apenas invólucros aconchegantes, para gozo do homem, tornando a vida dele mais agradável".
A relação de Freud com Minna, irmã de Martha, era muito estranha. Era normal viajarem juntos só os dois, o que era muito humilhante para a esposa. Minna foi viver com eles um mês depois do nascimento de Anna (1885), teoricamente para ajudar a cuidar dela e da Martha.
A certa altura confessa que apesar de Freud viajar com a irmã de Marta sozinhos, esta mantém o estereotipo de ter sido a esposa do génio e a sua viúva, magnífica dona de casa e mãe exemplar dos filhos.
A autora refere que, com a leitura desta obra as figuras de ambos se revelam muito diferentes do que esperaríamos, mas que não deve ser considerado como uma perda, mas sim "uma revelação surpreendente".



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