sábado, 29 de junho de 2024

CLUBE DE LEITURA - JULHO 2024

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 25 de julho, pelas 21h00.

O livro selecionado será "E três maçãs caíram do céu" de Nariné Abgarian.



Sinopse: Numa pequena aldeia das montanhas arménias, onde o tempo parece não passar, uma mulher convence-se de que vai morrer e deita-se na cama, à espera. Mas um vizinho entra em sua casa com uma proposta inesperada.

Em Maran, uma pequena aldeia aninhada nas montanhas arménias, os sonhos, as pragas e os milagres são produtos da realidade, intocados pelo tempo. É neste lugar perdido que encontramos Anatólia, tranquila, deitada na sua cama, à espera da morte, convicta de que só isso pode acontecer.

Anatólia teve uma vida longa, não foi mãe como tanto desejou, passou anos a cuidar da biblioteca da aldeia, centro da sua pouca felicidade, e foi mulher num casamento em que o sofrimento substituiu o amor. Agora, sabe-o, vai morrer. Porém, Vassíli, o vizinho, entra de surpresa em sua casa: ele tem outros planos e uma proposta inesperada para lhe fazer.

E assim começa a história que vai transformar a aldeia de Maran, uma história que mescla realidade e fábula, que confunde as fronteiras do racional e do onírico, e não deixa ninguém - naquela aldeia ou deste lado do romance - indiferente.


Quem é Nariné Abgarian?




Romancista arménia premiada, Nariné Abgarian escreve em russo e ganhou grande reconhecimento com a publicação de E Três Maçãs Caíram do Céu, em 2015, um bestseller internacional que lhe valeu o prémio Iasnaia Poliana. Também galardoada pela sua obra infantil, que já teve adaptações cinematográficas, a autora regressou ao seu país natal em 2022, dividindo agora o seu tempo entre a Arménia e a Alemanha.

Críticas: 


«Leiam este livro: é um bálsamo para a alma.»
Ludmila Ulitskaya, autora de Sonechka

«Um romance em que as descrições do quotidiano são belissimamente buriladas para deixar as personagens , tão simples e, porém, tão complexas, brilhar.
Publishers Weekly

«Maravilhoso e encantador, este romance celebra a palavra "comunidade" com um enredo em que o lado mágico e a fábula transformam a simplicidade na mais delicada escrita.»
The Herald Journal

CLUBE DE LEITURA - JUNHO

Na passada quinta-feira, dia 27 de junho, pelas 21h00, decorreu a sessão, do mês de junho do Clube de Leitura, para a análise e discussão da obra "Dor fantasma" do escritor brasileiro Rafael Gallo, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2022.

Em 2015 publicou a obra "Rebentar", vencedora do Prémio São Paulo de Literatura, em 2012 "Réveillon e outros dias", vencedora do Prémio Sesc de Literatura, tem também antologias e coletâneas publicadas em diversos países como França, Estados Unidos, Cuba, Equador e Moçambique. Tem sido muito bem acolhido, com críticas favoráveis por parte da nova geração de escritores, sobretudo portugueses, tais como José Luís Peixoto, João Tordo, Valter Hugo Mãe, Gonçalo M. Tavares e Bruno Vieira Amaral.

A obra está dividida em apenas quatro capítulos. O primeiro, Coda, que paradoxalmente corresponde à parte final de uma obra literária ou musical. O segundo, Exposição, o terceiro, Desenvolvimento e quarto, Cadenza.

Assim, estamos sem dúvida, perante uma obra muito bem estruturada, que revela uma grande experiência narrativa, e, que, segundo a opinião de Nélida Piñon, o autor é um "herdeiro das portas da imaginação, que Homero abriu", na qual se destaca uma grande capacidade criativa conseguindo fazer o cruzamento entre a música, a literatura e a frágil condição humana. 

Sendo a música a área de formação de Gallo, é por aí que somos conduzidos através de sinfonias musicais eruditas magistralmente executadas por um artista, que passamos a conhecer profundamente.

É a história de um pianista clássico, o Rómulo Castelo, que é um homem muito obcecado, como o são alguns músicos clássicos: aspiram à perfeição. Ele só tem isso na vida dele — o casamento é um fracasso, ele praticamente não interage nem com a mulher nem com o filho, que tem paralisia cerebral e é o oposto da perfeição. Vai vivendo à espera da sua grande estreia com uma peça de Liszt, conhecida como uma ‘peça intocável’, o “Rondo Fantastique”, mas a dado momento sofre um acidente e fica com a mão direita amputada. E já não pode mais ser o grande pianista que ele sabe ser, nem consegue refazer o sentido da sua vida, entrando uma espiral de derrocada, em busca de retomar o que ele nunca chegou a ser. Porque achava que ia fazer a grande estreia daquela peça, e quando a tocasse o mundo inteiro ia saber quem ele é.

A crise pessoal do Rómulo é um quebrar dessa rigidez, desse olhar que procura o caminho certo e não concebe sair dele. Isto é algo com o qual o autor confessa em entrevista, que teve que lidar na sua vida pessoal e andava à procura de exorcisar. "É curioso porque o lado da música é de facto o mais aparente, mas o que mais me aproxima da personagem são outros traços ainda mais profundos".

Ao longo da leitura da obra, que nos prende desde o princípio até ao final, que está carregada de dor, ironia, desespero, traumas, enclausuramento, em que a personagem se vai tornando grotesca, cruel, somos conduzidos e alertados para uma reflexão contemporânea e até de outros tempos sobre os perigos de uma educação com excesso de rigor, perfeccionismo e egocentrismo doentios, que criam verdadeiros monstros e casos patológicos.

Relembrando a citação no início da obra, define-se muito do seu desenvolvimento posterior: 

"Você é o cavaleiro louco que matou o dragão, depois matou a donzela e por fim destroçou também a si mesmo.

Na realidade, você é o dragão."

 Amós Oz (1939-2018), escritor e pacifista israelita












quarta-feira, 29 de maio de 2024

CLUBE DE LEITURA - JUNHO 2024

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 27 de junho de maio, pelas 21h00.

O livro selecionado será "A dor fantasma" de Rafael Gallo.


Sinopse: Rômulo Castelo, um pianista virtuoso, dedica-se inteiramente a buscar a perfeição na sua arte e, todas as manhãs, ao acordar, fecha-se na sua sala de estudos e ensaia aquela que é considerada a peça intocável de Liszt, o Rondeau Fantastique. Em breve, Rômulo irá oferecê-la ao mundo, numa tournée pela Europa que o sagrará como o maior intérprete daquele compositor. A vida, porém, tem outros planos e, de um dia para o outro, Rómulo vê fugir-lhe aquele que julgava ser o seu lugar por direito no pódio do mundo.

Quem é Rafael Gallo?

Nasceu e vive em São Paulo, no Brasil, onde publicou o romance Rebentar (2015), vencedor do Prémio São Paulo de Literatura, e Réveillon e outros dias (2012), livro de contos vencedor do Prémio Sesc de Literatura. Tem ainda diversos textos em antologias e coletâneas, incluindo publicações em países como França, Estados Unidos, Cuba, Equador e Moçambique. Com Dor fantasma, foi laureado vencedor do Prémio Literário José Saramago 2022.

Opiniões

Romance inquietante com música dentro, e também dor e desespero. A ânsia de alcançar a perfeição cruza-se com todas as fragilidades humanas. Uma leitura que prende. Absolutamente.

Pilar del Río


A mão de Rafael Gallo […] é mão cirúrgica, aplicando incisões seguras e sábias, é mão de pintor, na pincelada criativa e intencional, é mão de maestro segurando a batuta e guiando a orquestra num crescendo de som e fúria a culminar no magistral desenlace do romance.

Bruno Vieira Amaral


Uma escrita e uma história que carregam dor, mas também ironia e uma certa alegria que paira, apesar de tudo, por ali, como um outro fantasma, benigno, na sala.

Gonçalo M. Tavares


Dor Fantasma é um belíssimo romance […]. O cruzamento entre a música, a literatura e a fragilíssima condição humana (representada, neste livro, pelo atavismo) é absolutamente brilhante.

João Tordo


Estamos em presença de um texto seguro, que guia quem lê por caminhos que provocam diversas reflexões contemporâneas e de todos os tempos, como é o caso do contraste entre o humano e a arte, entre a imperfeição e o ideal.

José Luís Peixoto


Rafael Gallo tem um enorme talento, uma grande experiência narrativa e, sem dúvida, ele é um herdeiro das portas da imaginação, que Homero abriu.

Nélida Piñon


O livro de Rafael Gallo é brilhante. Este romance é ele mesmo educado, no sentido em que as feras podem ser eruditas na sua própria caçada, no rigor de sua mordida, no exercício de seus temores.

Valter Hugo Mãe


CLUBE DE LEITURA- MAIO 2024

Na passada terça-feira, dia 28 de maio, pelas 21h00, decorreu a sessão, do mês de maio do Clube de Leitura, para a análise e discussão da obra "Senhor Ventura" de Miguel Torga, publicada em 1943.

Em 1985, foi publicada uma nova edição e o próprio autor, no prefácio, confessou que esta obra tinha sido escrita de uma "assentada" e, passados quase 40 anos, na verdade, pretendia deixá-la no esquecimento.


No entanto, acaba por fazer uma espécie de revisão, justificando que naquela época "os atrevimentos são argumentos", deixando a "nu toda a fantasia descabelada e toda a canhestrez expressiva que se tem na juventude", mas a lucidez e benevolência que adquiriu ao longo da vida, levaram-no, pelo contrário, a recuperá-la, limpando-a de "impurezas" e dando um "jeito", numa tentativa de torná-la mais legível.

Trata-se de uma novela dividida em três partes, num total de 33 capítulos curtos, em que Miguel Torga deu asas à imaginação, também porque segundo ele, a caneta parecia o "cabo endiabrado de uma vassoira de feiticeira", por isso voou e esqueceu as leis da gravidade. "Portuguesmente verosímil", os lusitanos foram e serão sempre "andarilhos do mundo", capazes do melhor e do pior, nesta aventura que se inicia em Penedono, no Alentejo, passa por Lisboa, Macau, Pequim, Mongólia, Xangai, Cantão, Hong Kong, Nanquim, etc.

Pícara, ingénua, maliciosa, safada, trágica no fim, porque em tragédia sempre morrem os mitos. E este mito é bem português, fadado para enfrentar as agruras da vida numa peregrinação aventurosa de um emigrante, com mortos e feridos, miséria e grandeza, amores e traições, fomes e febres, alegrias entre o Oriente, Tatiana e Penedono.










segunda-feira, 6 de maio de 2024

CLUBE DE LEITURa - MAIO 2024

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 28 de maio, pelas 21h00.

O livro selecionado será "O senhor Ventura" de Miguel Torga.



Sinopse: 
«E que história a sua! - pícara, ingénua, maliciosa, safada, trágica, ao fim, porque em tragédia sempre morrem os mitos. […] E, no entanto, que mais português que o Ventura, na sua peregrinação, entre mortos e feridos, miséria e grandeza, amores e traições, fomes e febres, e alegrias - entre o Oriente, Tatiana e Penedono?
[…]
Pode finalmente dizer-se que jamais um mito tão bem baptizado foi, em nome assim e fatalmente português.»

José-Augusto França

Quem é Miguel Torga?




Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, autor de uma vasta produção literária, largamente reconhecida e traduzida em várias línguas. Nasceu em S. Martinho de Anta em 1907. Depois de uma experiência de emigração no Brasil durante a adolescência, cursou Medicina em Coimbra, onde passou a viver e onde veio a falecer em 1995. Foi poeta presencista numa primeira fase; a sua obra abordou temas sociais como a justiça e a liberdade, o amor, a angústia da morte, e deixou transparecer uma aliança íntima e permanente entre o homem e a terra. Estreou-se com Ansiedade, destacando-se no domínio da poesia com Orfeu RebeldeCântico do Homem, bem como através de muitos poemas dispersos pelos dezasseis volumes do seu Diário; na obra de ficção distinguimos A Criação do MundoBichosNovos Contos da Montanha, entre outros. O Diário ocupa um lugar de grande relevo na sua obra. Também como escritor dramático, publicou três obras intituladas Terra FirmeMar e O Paraíso. Recebeu, entre outros, o Prémio Montaigne em 1981, o Prémio Camões em 1989 e o Prémio Vida Literária (atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores) em 1992.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

CLUBE DE LEITURA - ABRIL

Na passada terça-feira, dia 23 de abril, pelas 21h00, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura para a análise e discussão da obra poética "País de Abril" de Manuel Alegre, numa especial homenagem aos 50 anos do 25 de Abril.

Manuel Alegre é um poeta com um percurso de vida inspirador, que quase dispensa apresentações.  Resistente e incorformista, foi um jovem tribunício em Coimbra, conspirativo nos Açores, combatente em África, resistente comunista na prisão e no exílio em Argel, radialista, protagonista do Partido Socialista, ministro, deputado, candidato presidencial... Mas também nadador, caçador, pescador, amante de touradas, letrista de fados, um rebelde desde cedo da causa da liberdade.

País de Abril é uma breve antologia, com uma poesia acessível, clara, objetiva, dividida em duas fases. Uma escrita antes do 25 de abril, onde nos é revelada uma antevisão da revolução dos cravos de abril, de maio, naquele tempo associado à primavera e a renovação. 

Nesta obra poética fazem parte poemas que nos falam de abril antes de Abril e de Maio antes de Maio, no poema Praça da Canção, editada em 1964, e em O Canto e as Armas, de 1967.

Em O Canto e as Armas há, por exemplo, aqueles quatro versos de «Poemarma» que, decerto, anunciam o primeiro comunicado da Revolução:


«Que o poema seja microfone e fale

uma noite destas de repente às três e tal

para que a lua estoire e o sono estale

e a gente acorde finalmente em Portugal».


Mas, também, em «Lisboa perto e longe», a estrofe que canta, sete anos antes, Lisboa na rua, de cravo vermelho na mão, no Primeiro de Maio de 1974:


«Lisboa tem um cravo em cada mão

tem camisas que Abril desabotoa

mas em Maio Lisboa é uma canção

onde há versos que são cravos vermelhos

Lisboa que ninguém verá de joelhos.»

 

No poema "Vinte anos depois", está estampado o seu receio de um retrocesso, "a história escreve-se ao contrário". O último poema é dedicado ao "herói que não se rende", Salgueiro Maia, este sim, segundo o poeta representa a "pureza inicial".

Para a merecida homenagem cantou-se alguns dos seus poemas musicados como a "Trova do vento que passa" e "Meu amor é marinheiro".

Viva o 25 de Abril! Viva a Liberdade! Vivam os Poetas!












segunda-feira, 8 de abril de 2024

CLUBE DE LEITURA - ABRIL

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 23 de abril, pelas 21h00.

O livro selecionado será "País de abril" de Manuel Alegre, pelos 50 anos do 25 de abril.



Nesta antologia há muitos poemas que falam de Abril antes de Abril e de Maio antes de Maio, em Praça da Canção, editada em 1964, e em O Canto e as Armas, de 1967.

Em O Canto e as Armas há, por exemplo, aqueles quatro versos de «Poemarma» que, decerto, anunciam o primeiro comunicado da Revolução:


«Que o poema seja microfone e fale

uma noite destas de repente às três e tal

para que a lua estoire e o sono estale

e a gente acorde finalmente em Portugal».


Mas, também, em «Lisboa perto e longe», a estrofe que canta, sete anos antes, Lisboa na rua, de cravo vermelho na mão, no Primeiro de Maio de 1974:


«Lisboa tem um cravo em cada mão

tem camisas que Abril desabotoa

mas em Maio Lisboa é uma canção

onde há versos que são cravos vermelhos

Lisboa que ninguém verá de joelhos.»

 

 

Quem é Manuel Alegre?

O poeta Manuel Alegre foi galardoado, juntamente com o fotógrafo José Manuel Rodrigues, com o Prémio Pessoa 1999, uma iniciativa do jornal "Expresso" e da Unisys. Foi a primeira vez que este prémio, que pretende «reconhecer uma pessoa de nacionalidade portuguesa com uma intervenção particularmente relevante e inovadora na vida artística, literária e científica do país», foi atribuído ex-aequo. Pinto Balsemão, em representação do júri, justificou a escolha do nome de Manuel Alegre, que viu reunida a sua obra poética no volume "Trinta Anos de Poesia" (Publ. D. Quixote), por «ser uma referência da poesia portuguesa deste século» e representar « a visão de um Portugal aberto ao mundo e um humanismo universalista atento a tudo o que nos rodeia».

Manuel Alegre, que poucos meses havia sido consagrado com o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, pelo conjunto da sua obra, a propósito da publicação do livro "Senhora das Tempestades", nasceu em Águeda em 1936 e estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde participou ativamente nas lutas académicas. Quando cumpria o serviço militar em Angola, participou na primeira tentativa de rebelião contra a guerra colonial, sendo então preso pela PIDE. Seguiu-se o exílio em Argel, onde foi membro diretivo da F.P.L.N. e locutor da rádio Voz da Liberdade. A sua atividade política andou sempre a par da atividade literária e alguns dos seus poemas ("Trova do Vento que Passa", "Nambuangongo Meu Amor", "Canção com Lágrimas e Sol"...) transformaram-se em hinos geracionais e de combate ao fascismo, copiados e distribuídos de mão em mão, cantados por Adriano Correia de Oliveira ou Manuel Freire. Os seus dois primeiros livros, "Praça da Canção" (1965) e "O Canto e as Armas" (1967) venderam mais de cem mil exemplares. Comentando o prémio, em entrevista ao "Diário de Notícias", o escritor afirmava: «Devo tudo aos meus leitores. É, sobretudo, uma vitória deles. Porque foram os leitores que, ao longo da minha vida literária, estiveram sempre perto de mim e me ajudaram a vencer várias censuras (política e estética). Expresso-lhes a minha gratidão.»

Regressado do exílio em 1974, "o poeta da liberdade" desempenhou um papel de relevo no Partido Socialista. Foi membro do Governo, deputado da Assembleia da República e ocupou um lugar no Conselho de Estado, funcionando muitas vezes como uma espécie de consciência crítica do seu partido. Os livros mais recentes (note-se ainda a incursão pela prosa: "Jornada de África", 1989, "Alma", 1995, e " "A Terceira Rosa", 1998) levam-no ao diálogo com poetas de outros tempos, como Dante ou Camões, ou a refletir sobre a condição humana, a morte e o sentido da existência, de que são exemplo os "Poemas do Pescador", que se enfrenta com o enigma da sua vida, incluídos no livro "Senhora das Tempestades", «Senhora dos cabelos de alga onde se escondem as divindades / (...) Senhora do Sol do sul com que me cegas / / (...) Senhora da vida que passa e do sentido trágico // (...) Senhora do poema e da oculta fórmula da escrita / alquimia de sons Senhora do vento norte / que trazes a palavra nunca dita / Senhora da minha vida Senhora da minha morte.»
Recebeu o mais prestigiado galardão das letras lusófonas, o Prémio Camões, em 2017.

CLUBE DE LEITURA - MARÇO

Na passada quinta-feira, dia 04 de abril, pelas 21h00, decorreu a sessão do referente ao mês de março do Clube de Leitura para a análise e discussão da obra "Sashenka" de Simon Sebag Montefiore, premiado escritor britânico.

"Sashenka” é uma obra de ficção do historiador Simon Sebag Montefiore. A capa do livro é bastante apelativa, com uma mulher lindíssima nela representada.

A escrita é fluída e cativa pelos detalhes, envolvendo os leitores nas complexidades da Rússia pré-revolucionária e vários períodos subsequentes.

Trata-se de um romance de amor e tragédia, de amor à pátria e à família, que narra a história de Sashenka, uma jovem proveniente de uma família aristocrata, abastada e disfuncional.

Introduzida pelo seu tido Mendel, a personagem principal entra no partido comunista, luta pela igualdade social e por uma vida melhor para o seu país.

Destaca-se a particularidade das leituras sugeridas e orientadas pelo seu tio Mendel que lhe dá a conhecer vários autores russos, levando-a a acreditar numa mudança.

A personagem evolui ao longo da narrativa, personificando as contradições morais de uma sociedade em transformação, expondo dilemas e lutas políticas de uma nação inteira que cai num ciclo vicioso de opressão e crueldade impressionantes.

Apesar da nação depositar esperança na revolução bolchevique, a trama expõe o funcionamento do partido comunista russo - um clima de suspeição constante ainda que todos lutem por um ideal.

Para escrever Sashenka, Simon inspirou-se na fotografia a preto e branco de uma jovem mulher que foi presa em 1937 e também a história da sua família judaica.

Os eventos históricos estão muito bem integrados na narrativa, refletindo a veia de historiador do autor.

Especial referência para o acesso aos ficheiros do KGB. E uma nota para os agradecimentos, que ajudam a esclarecer alguns pontos.

História e ficção de mãos dadas. Quando ambas criam uma relação de amizade, o resultado só pode ser avassalador. Na minha perspectiva enquanto leitora, o historiador Simon Montefiore conseguiu, de forma brilhante, descrever a Rússia do século XX, a sua sociedade e os seus costumes. A viagem por este romance de amor e de tragédia retrata-nos, pormenorizadamente, a alta sociedade burguesa russa, a decadência de uma família abastada, mas completamente disfuncional, o desejo de mudança na sociedade e a esperança depositada na Revolução de 1917. A jovem Sachenka, movida pelos ideais de justiça e de igualdade, torna-se num símbolo burguês da resistência. De jovem revolucionária, a mulher e a mãe exemplar da Rússia soviética, vê a família cair em desgraça e é forçada a escolher entre o amor à pátria ou o amor à família.

A diegese apresentada permite, facilmente, ao leitor viajar por este teatro de desespero e de terror e, consequentemente, questionar-se acerca da possibilidade de qualquer uma de nós poder ser a própria Sachenka, visto que é “a história de uma mulher, mãe, bolchevique, uma pessoa real, que comete erros. É uma personagem forte, mas que não é perfeita, comete erros” (S.M.)

Juliana Marques (proponente da obra)