terça-feira, 2 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA - JUNHO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 25 de junho, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Crescer à Sombra" de Rita Redshoes


Sinopse: 
Marta tem 9 anos e uma dentição variável - pelo menos é o que nos garante. Detesta a escola mas cresce livre, no campo, por vezes feliz, outras, assombrada por personagens reais e imaginadas. As reais, em forma de adultos assustadores cujas existências não compreende, e as outras criadas por uma imaginação de quem cresce com muito tempo para pensar.


Numa narrativa ora terna, ora melancólica, ora carregada de humor, Rita Redshoes usa a própria infância para construir uma história com tanto de verdade como de ficção, lembrando em iguais medidas Tom Sawyer e O Meu Pé de Laranja Lima: a viagem de uma menina que se descobre enquanto tenta perceber o mundo.

Quem é Rita Redshoes?




É uma compositora, arranjadora, produtora e letrista que conta com seis discos na sua carreira a solo e atuações por várias partes do mundo como os EUA, Holanda, Suécia, Inglaterra, África do Sul, Macau, Timor ou França. Iniciou o seu percurso como baterista num grupo de teatro de escola (1997), passou por muitos projetos musicais como autora e intérprete, onde tocou diferentes instrumentos e gravou vários discos. Compôs bandas sonoras premiadas para teatro e cinema, também com discos editados nesta área e criou vários espetáculos levados a cena por todo o país. Estudou canto lírico e piano finalizando o Curso Profissional de Música e Novas Tecnologias. É licenciada em Psicologia Clínica e pós-graduada em Escrita de Ficção. Crescer à Sombra é o seu quinto livro e o primeiro editado pela Penguin Random House.

CLUBE DE LEITURA - MAIO 2026

Na passada 5ª feira, dia 28 de maio, pelas 21 horas, decorreu a sessão do mês, com a leitura da obra "Pés de barro" de de Nuno Duarte, vencedor do Prémio Leya 2024.

A obra aborda o período da construção da Ponte rodoferroviária sobre o rio Tejo que liga Lisboa à cidade de Almada, batizada como ponte Salazar, atualmente conhecida como a Ponte 25 de Abril.

A sua construção foi à época um verdadeiro acontecimento, foi um marco da engenharia em Portugal, envolvendo cerca de três mil trabalhadores, iniciou-se em 5 de novembro de 1962, tendo sido inaugurada em 6 de agosto de 1966, com uma extensão de 2.278 metros. Foi projetada pelo arquiteto Ray M. Boynton, envolvendo também engenheiros americanos.

Apesar da ficção, "Pés de barro" quase funciona como documento histórico duma época, tal a fiabilidade do relato.

A forte marca ideológica do texto pode naturalmente condicionar a sua apreciação literária.

Nuno Duarte consegue sabiamente integrar e cruzar num variado conjunto de histórias que, no seu todo, funcionam como peças de um puzzle, que nos vai dando a conhecer como era a vida em Portugal, no tempo da ditadura salazarista. Um regime autoritário, repressivo, discriminatório, violento, etc.

Na narrativa o lugar da acção é a zona de Alcântara, à beira Tejo. Excelente escolha já que aí conviveram em confronto, entre 1962 e 1966  dois mundos opostos.

Em Alcântara iniciou-se a construção da ponte sobre o Tejo - símbolo da modernidade, da opulência, da pretensa visão de futuro do regime.

Portugal está na vanguarda do mundo, apesar das más condições de vida e de segurança dos  milhares de trabalhadores que faziam a ponte.

Em Alcântara era também o cais de embarque de milhões de jovens adultos que iam para a guerra nas colónias africanas. A estranheza da situação, os perigos da guerra, a vida suspensa por vários anos. Muitos regressavam sem vida, estropiados, mentalmente destruídos.

É para o Pátio da Cabrinha, fortemente marcado pela construção da ponte que Vítor Tirapicos vai morar com os tios Ema e Artur. É aí que conhece Dália, o seu grande amor. É aí que vive o drama da sua relação com o pai. É aí que sofre com o sofrimento do seu irmão, Quim. E que é perseguido pela Pide. E que se desentende violentamente com o sucateiro Josué. E que acaba preso. E muito, muito mais...

O pátio é o lugar da gente humilde que aceita muitas vezes quase conformada a miséria, a obediência, a subserviência, a fome, o analfabetismo, a intolerância, a ausência da liberdade e de voz.

Nuno Duarte emociona-nos com o seu texto poderoso, muito reflexivo, comovente, oscilante entre a crueza da realidade e a esperança no futuro.

Confesso que não gostei da apoteose final.

Sei que foi, como é sempre, a opção do escritor. E não quero sentir-me como a D. Alberti, da "Misericórdia", mas senti algum desconforto na leitura, Pela descontinuidade do texto, no conteúdo, mas também na forma, pelo excesso de inauguração e pormenor descritivo que, em minha opinião desvalorizou a metáfora.

Maria Júlia


Cada palavra de "Pés de barro", merece o prémio que o livro ganhou. Mesmo os palavrões, tão assertivos, tão usados no momento certo, a raiva, o ódio, o sofrimento, exigiram-nos.

Pés de barro é um livro de contrastes. Um livro que, com muita ironia, deixa entranhado no leitor o cheiro putrefacto da fome, da miséria, da guerra, do sofrimento de um povo vítima da ditadura salazarista que contrasta com o maravilhoso cheiro do chocolate produzido na fábrica Regina. O povo português, saloio, pacóvio, analfabeto e servil, contrasta com o povo americano, evoluído e civilizado, que projetou a ponte sobre o rio Tejo. A bondade, a ternura de algumas personagens contrasta com a rigidez, a estupidez e o mau caráter de outras.

Um livro doloroso, que aperta o coração e faz soltar lágrimas com as descrções das atrocidades cometidas pela PIDE, do horror da guerra no Ultramar, tudo em nome da pátria.

Um livro em que Deus é posto em causa pois permite tanto sofrimento e tanta dor aos mais vulneráveis que a Ele se agarram e nada recebem em troca, a não ser injustiças e luto: "Deus estava lá em África quando ele pisara a mina mas preferia olhar para o lado".

E só uma revolução poderia preencher o vazio destas vidas sofridas, deixar de ser vazio para ser esperança.

Ana Paula Oliveira 




sábado, 2 de maio de 2026

CLUBE DE LEITURA - MAIO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 28 de maio, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Pés de barro" de Nuno Duarte

Sinopse: Estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria.


É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos.

Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis - entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler -, Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido.

Quem é Nuno Duarte?





Nasceu em Sintra, em 1973. Quando abriu os pulmões, já se respirava em liberdade, mas, para efeitos literários, pode afiançar, sem faltar à verdade, que ainda viveu no tempo da outra senhora. Quando abriu os olhos, já havia livros em casa. Havia os do pai, que eram do Steinbeck, do Dostoiévski, do Hemingway, do Ferreira de Castro e do Saramago; e havia os de banda desenhada, que eram do Goscinny, do Hergé, do Edgar P. Jacobs, do Christin e do Moebius. Estudou design gráfico no Ar.Co e começou uma carreira na publicidade onde foi diretor criativo de algumas das principais agências do mercado e amealhou várias distinções nacionais e internacionais. O gosto pela leitura e pela escrita, mas, sobretudo, a necessidade de perceber como se fazia, afinal, um daqueles livros como os que havia em casa, levaram-no a tentar. E a tentar. E a tentar de novo. Pés de Barro é o seu primeiro romance.



CLUBE DE LEITURA - ABRIL 2026

Na passada quinta-feira, dia 30 de abril, pelas 21h00, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura, para a abordagem e discussão da obra "Misericórdia" de Lídia Jorge.

Esta obra recebeu o Grande Prémio do Romance e Novela, em 2022, da APE e o Prémio Melhor Livro Lusófano, publicado em França, atribuído pela revista Tranfuge e considerado já como uma obra prima de Lídia Jorge.

É considerada uma obra audaciosa, com profunda humanidade num estilo literário refinado, de leitura rica e complexa, mas acessível.

Decorre no lar da Santa Casa da Misericórdia de Boliquieme, apelidado de Hotel Paraíso, no Algarve, durante o período da pandemia do covid-19, um tempo bizarro, num espaço concentracionário e de confinamento. Neste hotel, vão-se perfilando ao longo da obra a Dona Alberti e as mais diversas personagens - idosos e cuidadores - e as vivências num ambiente muito semelhante a um qualquer lar do mundo.

Este livro foi escrito a pedido da mãe da autora, tendo sido interpretado como um grito, um clamor, vindo da solidão e do desenraizamento da espera.

É admirável como a autora consegue que ele seja ao mesmo tempo brutal e esperançoso, irónico e amável, misto de choro e riso.

Para Tolentino de Mendonça, esta obra desperta para a atenção que todos devemos ter para com o envelhecimento, o cuidado e a importância de tentarmos dar sentido à vida dos idosos até ao fim e à "necessidade de compaixão e valorização da experiência humana".

Misericórdia é um convite à reflexão sobre o tratamento de idosos e do valor da humanidade na interação social. 












quarta-feira, 1 de abril de 2026

CLUBE DE LEITURA - ABRL 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 26 de abril, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Misericórdia" de Lídia Jorge.


 Sinopse: 

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores

Prémio Urbano Tavares Rodrigues

Prémio do PEN Clube Português
Prémio Fernando Namora
Prémio Médicis

Misericórdia é um dos livros mais audaciosos da literatura portuguesa dos últimos tempos. Como a autora consegue que ele seja ao mesmo tempo brutal e esperançoso, irónico e amável, misto de choro e riso, é uma verdadeira proeza.

Não são necessárias muitas palavras para apresentá-lo - o diário do último ano de vida de uma mulher incorpora no seu relato o fulgor das existências cruzadas num ambiente concentracionário, e transforma-se no testemunho admirável da condição humana.

Isso acontece porque o milagre da literatura está presente. Nos tempos que correm, depois do enfrentamento global de provas tão decisivas para a Humanidade, esperávamos por um livro assim. Lídia Jorge escreveu-o.

Quem é Lídia Jorge?




Romancista e contista portuguesa. Nasceu em 1946, no Algarve. Viveu os anos mais conturbados da Guerra Colonial em África. Foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. O tema da mulher e da sua solidão é uma preocupação central da obra de Lídia Jorge, como, por exemplo, em Notícia da Cidade Silvestre (1984) e A Costa dos Murmúrios (1988). O Dia dos Prodigíos (1979), outro romance de relevo, encerra uma grande capacidade inventiva, retratando o marasmo e a desadaptação de uma pequena aldeia algarvia. O Vento Assobiando nas Gruas (2002) é mais um romance da autora e aborda a relação entre uma mulher branca com um homem africano e o seu comportamento perante uma sociedade de contrastes. Este seu livro venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2003.

Venceu o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas 2020.
Venceu o Prémio Pessoa de 2025.

terça-feira, 31 de março de 2026

CLUBE DE LEITURA - MARÇO

Como a sessão do Clube do dia 26 de fevereiro foi suspensa, devido às màs condições da BM,  foi adiada para o mês seguinte.

Assim, na passada quinta-feira, dia 26 de março, pelas 21h00, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura, para a abordagem e discussão da obra "Paraíso" de Addulrazak Gurnah, seguida 

de uma pequena homenagem à Poesia, com declamação de poemas dos poetas homenageados no Festival da Poesia à Mesa, deste ano.

Gurnah tem vários livros publicados, aos quais têm sido atribuídos diversos prémios entre os quais o Prémio Nobel da Literatura em 2021, justificado "pela forma determinada e humana com que aborda e aprofunda as consequências do colonialismo e o destino dos refugiados no fosso entre culturas e continentes".

Nesta obra, com uma escrita clara e fluída, somos transportados pelo continente africano, inicialmente pela sua parte oriental até ao interior, no coração de África, provavelmente na Tanzânia, mum contexto de mudança política, em inícios do século XX.

Seguimos a infância e juventude de Ysuf, um belo e puro menino de 12 anos que é vendido pelo seu pai como escravo a um rico comerciante árabe, Aziz, a troco de dívidas contraídas pelo seu pai. 

Começa por trabalhar na mercearia onde conhece Khalil, com um percurso de vida muito semelhante ao seu. A partir daí tem uma relação fraternal com este personagem, aprendendo a ler, a escrever a contar e escutar muitos outros segredos que se tornam essenciais para conseguir sobreviver naquele mundo.

Mais tarde, vai participar numa perigosa expedição comercial ao interior do continente, uma viagem de iniciação pelo coração das trevas, ao longo de uma paisagem bela e selvagem, que o levará a descobrir um território povoado por tribos hostis, africanos muçulmanos, comerciantes indianos e agricultores europeus, um paraíso ameaçado, em vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Estamos perante um romance, com ficção história e literatura de viagens num mosaico de mitos, sonhos, tradições bíblicas e corânicas, onde são descritas as feridas vivas de um continente ainda virgem em vias de sofrer uma nova vaga de colonização.

Não temos uma África romantizada, com a sua beleza natural exuberante, com horizontes, sentidos, emoções, mas sim uma África em que os senhores são os donos dos lugares mais encantadores e onde a brutalidade e injustiça são a normalidade, sempre latentes durante toda a obra.

Será uma espécie de Paraíso, mas só para alguns.

































quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

CLUBE DE LEITURA - FEVEREIRO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 26 de fevereiro, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Paraíso" de Abdulrazak Gurnah. 





Sinopse: Nascido numa pequena povoação da África Oriental, Yusuf é vendido aos doze anos pelo seu pai ao rico comerciante Aziz, a quem se habituara a chamar tio. Na sua nova vida como escravo, Yusuf é chamado a participar numa perigosa expedição comercial ao interior do continente.


Uma verdadeira viagem de iniciação pelo coração das trevas ao longo de uma paisagem bela e selvagem, que o levará a descobrir um território povoado por tribos hostis, africanos muçulmanos, comerciantes indianos e agricultores europeus, um paraíso ameaçado, em vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Aliando romance de formação, ficção histórica e literatura de viagens num mosaico de mitos, sonhos, tradições bíblicas e corânicas, Gurnah descreve as feridas vivas de um continente ainda virgem em vias de ser colonizado.

Finalista do Booker Prize e do Whitbread Award, Paraíso, originalmente publicado em 1994, foi o romance que projectou Abdulrazak Gurnah para o palco internacional, consagrando-o como um dos grandes escritores da actualidade.

Quem é Abdulrazk Gurnah?




PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA 2021

Abdulrazak Gurnah nasceu em 1948 em Zanzibar. Na década de 1960, abandonou o seu país, então a braços com uma revolução, e rumou ao Reino Unido. Foi professor de Literatura Inglesa na Universidade de Kent em Canterbury, onde vive atualmente. A sua obra versa sobre a experiência africana, o colonialismo e o refugiado, e nela se destacam os romances Paraíso (1994), finalista do Booker Prize e do Whitbread AwardJunto ao Mar (2001), nomeado para o Booker Prize e finalista do Los Angeles Times Book AwardO Desertor (2005), finalista do Commonwealth Writers' Prize; e Vidas Seguintes (2020), finalista do Orwell Prize for Political Writing 2021 e nomeado para o Walter Scott Prize 2021, todos eles publicados pela Cavalo de Ferro. Gurnah recebeu o Prémio Nobel de Literatura 2021 «pela forma determinada e humana com que aborda e aprofunda as consequências do colonialismo e o destino do refugiado no fosso entre culturas e continentes». Gente da Casa (2025) é o seu mais recente romance.

CLUBE DE LEITURA - JANEIRO 2026

Na passada quinta-feira, dia 29 de janeiro, pelas 21h00, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura, para a abordagem e discussão da obra "Autobiografia não escrita de Martha Freud" de Teolinda Gersão.

Nesta "Autobiografia", T. Gersão explica numa nota inicial que se baseou, essencialmente em documentos, a fonte consiste nas cartas trocadas entre Sigmund Freud e Martha Bernays, escritas durante o seu noivado, entre 1882 e 1886 e publicadas pela primeira vez em quatro volumes, entre 2011 e 2019. Até 2011 as cartas não eram conhecidas. Utilizou também cartas trocadas entre Freud e outras pessoas.

Assim, a narradora é Martha, autora de uma autobiografia que nunca escreveu, alegando que a filha mais nova, Anna, nunca o teria permitido, porque controlava ciosamente todas as publicações sobre o pai, sendo a defensora mais feroz e intransigente do seu legado.

A narração começa após a morte de Freud, em Londres, em 1939, não se sabendo exatamente em que ano em que Martha faleceu (1951?).

Nesta troca de correspondência entre estas duas personagens históricas, não se aborda a obra científica, "Não escrevo ao homem da ciência, mas ao homem que me fez sua noiva", mas sim o percurso de vida de duas personalidade fortes, mas muito diferentes, a relação entre ambos e com outras personagens incontornáveis das suas vidas. 

Assim, nesta obra somos confrontados com Freud, na perspectiva da sua esposa ao longo da sua vida em comum. Freud revela-se-nos um ser estranho, egoísta, narcisista, egocêntrico, manipulador, frio, calculista, ciumento, obssessivo, consumidor de cocaína, etc.

Martha, no capítulo 4º, explica porque se apaixonou por ele: "Creio que foi por ele me atrair fisicamente e o sentir superior a mim que me apaixonei", era "um homem mais alto, mais inteligente, culto e forte do que eu, de aparência sensual e olhar perscrutador e magnético atraía-me irresistivelmente". Também no capítulo 20 confessa que "eu distinguia nele vários aspectos que me seduziram, como a imaginação poderosa, o seu amor pela literatura e a sua criatividade".

Na sua relação está presente um modo dominador em relação a Martha quando escreve: "Pertences-me e vais mesmo ser como eu quero".(22/1/1882).

Recusou comparecer ao casamento de Eli, o irmão de Martha, com a sua própria irmã Anna com a seguinte frase " o dia chegará em que vingarei os meus que considero superiores aos teus" (22/10/1882)

"Há dois anos que luto com a ralé, que ora é Fritz, Max, Eli ou a mamã e não percebes que eu pertenço a uma espécie melhor e mais nobre de pessoas".  (27/7/1884)

No capítulo 24, Martha confessa: "Éramos apenas 14 pessoas à mesa no almoço da boda", "o dinheiro era escasso e tínhamos de cortar o que não era essencial, mas Sigi ia todos os dias ao barbeiro e o guarda-roupa manteve-se impecável".

Quando nasceu a primeira filha Freud escreveu à sogra: "Estou terrivelmente cansado, como se tivesse sido eu a ter a criança".

Quanto aos doentes, Martha achava que Freud pouco se importava com a cura dos doentes, via-os mais como fonte de rendimento, porque a sua clientela era rica, excêntrica, desorientada. Lutava por duas coisas: nome e fortuna.

Mas Martha, por vezes, também se diminuiu em carta:  "tens de me aceitar tal como sou, por vezes infeliz, um pouco burra, espirituosa e de natureza um pouco cordeirinha".

Afirma que "várias vezes me apeteceu deixá-lo, só que a alternativa mais provável para uma rapariga pobre e já bastante envelhecida (faria em julho, 26 anos), quando era habitual casar aos 20, o destino possível seria cuidar da minha mãe e apoiar na sua morte, entrar ao serviço de outra idosa (na melhor das hipóteses) como dama de companhia. E essa ainda era pior do que correr o risco e casar com Sigi".

Por outro lado Freud não rompeu o noivado porque precisava de resolver o "problema do casamento. Um homem notável e respeitado devia casar e ter filhos".

No capítulo 24, quando se refere à sua vida sexual, Martha deixa transparecer que não era muito satisfatório, ao escrever: "Senti uma grande falta de ternura e carinho, como era expectável num homem selvagem, com o corpo cheio de cocaína". Freud tinha-lhe anunciado antes do casamento: "Ai de ti, minha princesa, quando eu chegar vais ver quem é mais forte, se uma jovem que não come o suficiente ou um homem selvagem, com o corpo cheio de cocaína." 

Mais tarde leria, casualmente, uma afirmação sua: "As mulheres deviam considerar os seus órgãos genitais como apenas invólucros aconchegantes, para gozo do homem, tornando a vida dele mais agradável".

A relação de Freud com Minna, irmã de Martha, era muito estranha. Era normal viajarem juntos só os dois, o que era muito humilhante para a esposa. Minna foi viver com eles um mês depois do nascimento da filha Anna (1885), teoricamente para ajudar a cuidar dela e da Martha.

A certa altura confessa que apesar de Freud viajar com a  irmã de Marta sozinhos, esta mantém o estereotipo de ter sido a esposa do génio e a sua viúva, magnífica dona de casa e mãe exemplar dos filhos.

T. Gersão conclui que, com a leitura desta obra as figuras de ambos se revelam muito diferentes do que esperaríamos, mas que não deve ser considerado como uma perda, mas sim "uma revelação surpreendente".













terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CLUBE DE LEITURA -JANEIRO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 29 de janeiro, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Autobiografia não escrita de Martha Freud" de Teolinda Gersão.


Sinopse: 
Este é um romance sobre personagens históricas, mas não um "romance histórico", na medida em que pretende seguir/reconstituir/aproximar-se o mais possível da realidade, obrigando-se a usar sobretudo a interpretação (que as torna visíveis), reduzindo ao mínimo a fantasia (que iria "atraiçoá-las"). Apesar da subjectividade inevitável de tudo o que é escrito, procura ser "objectivo", porque alicerçado em documentos.

Uma vez que Freud sempre teve voz e Martha foi até 2011 silenciada e reduzida ao estereótipo de esposa, mãe e dona de casa, descobrir a sua personalidade "real" não me interessou menos do que a do homem célebre, complexo e multifacetado da sua vida. Aliás, neste caso a celebridade não importa, a matéria do livro é o diálogo de duas pessoas em igual medida importantes, que mutuamente se procuram, encontram e desencontram.

É possível que para o leitor (como no início para mim) as figuras de ambos se revelem muito diferentes do que esperaria. O que não considero uma perda, mas uma revelação surpreendente.»

Teolinda Gersão


Quem é Teolinda Gersão?

Teolinda Gersão estudou nas Universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, foi leitora de português na Universidade Técnica de Berlim e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, onde leccionou Literatura Alemã e Literatura Comparada. Viveu três anos na Alemanha, dois anos em São Paulo, Brasil, e conheceu Moçambique e a cidade de Lourenço Marques, onde decorre o romance A árvore das palavras. É autora de 20 livros e a sua obra encontra-se traduzida em 20 países. Considerada uma das maiores escritoras portuguesas da atualidade, foi galardoada com os mais prestigiados prémios literários nacionais, nomeadamente o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, o Prémio do PEN Clube (1981 e 1989), o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio Fernando Namora (1999 e 2015) e o Prémio Literário Vergílio Ferreira 2017 pelo conjunto da sua obra.
Foi escritora residente da Universidade de Berkeley em 2004.
Alguns dos seus contos e livros têm sido adaptados ao cinema e ao teatro e encenados em Portugal, na Alemanha e na Roménia.
Em 2018, foi-lhe atribuído o Marquis Lifetime Achievement Award e, em 2023, venceu a 28.ª edição do Grande Prémio de Literatura dst com o livro O regresso de Júlia Mann a Paraty.