sexta-feira, 2 de outubro de 2026

CLUBE DE LEITURA - OUTUBRO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 29 de outubro, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Para sempre" de Vergílio Ferreira.





Sinopse: Em Para Sempre, «no final de uma vida, entrando no seu epílogo, um homem já sem destino para cumprir medita sobre o seu passado e o seu futuro, no regresso a uma casa vazia onde passou parte da sua infância, povoada de fantasmas que evocam os momentos-chave da sua existência. Recheado de flashbacks para o passado e para o futuro (!), a antevisão, real e com todos os detalhes, da degradação da sua velhice e do seu funeral urge em Paulo a derradeira tentativa de procura da explicação de um sentido para a vida».

«Contínua e cada vez mais solitária viagem em volta do único ponto do seu universo: o da sua infância como monólogo inacabado e inacabável em torno do milagre ardente e pavoroso da sua própria aparição no meio do mundo - montanha, estrelas, água, vento que é uma resposta antes de ser desesperada e inútil interrogação.» (Eduardo Lourenço)

Quem é Vergílio Ferreira?



Nasceu em 1916, em Melo (Gouveia), e morreu em 1996 em Lisboa. Estudou no Seminário do Fundão, licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Coimbra e foi professor do ensino secundário. É um dos maiores romancistas e ensaístas portugueses do século XX. É o autor de romances tão celebrados como Manhã Submersa (1954) e Aparição (1959), com preocupações de natureza metafísica e existencial. 
A sua prosa, que entronca na tradição queirosiana, é uma das mais inovadoras da literatura portuguesa. Temas como a morte, o mistério, o amor, o sentido do universo, o vazio de valores ou a natureza da arte são recorrentes na sua produção literária, tanto de ficção como de ensaio. 
Das suas últimas obras destacam-se Para Sempre (1983), Até ao Fim (1997) e Na Tua Face (1993). Recebeu o Prémio Camões em 1992.

CLUBE DE LEITURA - SETEMBRO 2026

Na passada quinta-feira, dia 24 de setembro, pelas 21 horas, decorrreu a sessão do Clube de Leitura para a abordagem da obra "Flores" de Afonso Cruz.

"Flores", de Afonso Cruz, é um romance publicado em 2015 que aborda temas como a memória, a velhice, a solidão, a amizade e o amor, convidando o leitor a refletir sobre a fragilidade e a complexidade das relações humanas.

A história desenrola-se sobretudo em torno da relação entre Mr. Ulme, um homem idoso que perde a memória, e o narrador que, ao tomar conhecimento da sua história, se vê levado a questionar também a sua própria vida, marcada por uma crise conjugal que o conduz à separação e pela dificuldade em comunicar com a sua própria filha. Através desta relação, Afonso Cruz constrói uma narrativa profundamente humana, na qual valoriza a amizade, a empatia e a capacidade de cuidar dos outros.

O romance é construído através de episódios, reflexões e histórias que se cruzam, contribuindo para a reconstituição do passado do Sr. Ulme, através de uma narrativa que nem sempre segue um percurso linear.

A escrita de Afonso Cruz constitui igualmente um dos pontos fortes do livro. O autor utiliza uma linguagem simples, mas, simultaneamente, poética e cheia de significado. Poderíamos enumerar diversas passagens do livro. Contudo, destacamos duas particularmente relacionadas com o quotidiano e que apresentam um significado universal.

“Toco levemente os lábios dela e sabe-me à rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa. Beijamo-nos como quem faz a cama.”  (página 25)

“As mães são fiéis depositárias da nossa infância, dos primeiros anos. As tuas memórias mais importantes, mais formadoras, não são tuas, são dela. E quando a tua mãe morrer, levará consigo a tua infância, perderás os primeiros anos da tua vida. Por isso trata-a bem.” (página 80)

Quanto ao título do livro, “Flores” pode ser entendido de forma simbólica. As flores remetem para a beleza e, simultaneamente, para a passagem do tempo.

Ao longo da obra, o autor, remete-nos algumas vezes para referências musicais, o que resulta numa agradável companhia durante a leitura.

 

Nas páginas 128/129, o narrador encontra-se com Mostovol na Ginjinha sem Rival e Mostovol pede um "alexandrino". Esta bebida não existe, o que existe é o licor Eduardino. É um trocadilho do autor.

 

Quanto à "banda sonora" do livro, referindo o tema "Autumn Leaves".

Na página 149, o autor fala do tema "One More Kiss, dear" numa versão dos nossos Clã.

https://share.google/A6gkizR7visBiZ06f

 

"blind blake diddie wa diddie com legendas em inglês" https://share.google/hb6P3lcoulBippOt8

Diddie wa Diddie", de Blind Blake, gravada em 1929.

Pág 83/84:

-Querem ouvir o quê?-perguntou ele.

A Beatriz respondeu "blues".

-Pode ser Blind Blake, Beatriz?

-Pode-disse ela.

 

"A música, antes dele, era como limpar a casa sem a possibilidade de chegar àquela área debaixo do sofá ou a certos recantos." Pág. 182

https://music.youtube.com/@CharlieParkerOfficial

 

"Estava com a Sara, a enfermeira, a ouvir e a comentar o virtuosismo de Miles Davis ou a criticar o pop." pág 205

https://share.google/EvlIYu0W2EGsDU5zK

 

Segue-se " Ain't no sunshine when she's gone", canção de Bill Withers, de 1971. Cf. pág 216: "Vamos fazer um baile no terraço, pede aos músicos da orquestra Mnor que toquem o fado do cansaço e o Ain't no sunshine when she's gone e mais outras, tenho de fazer uma lista..."

Ain't No Sunshine https://share.google/MSJLkpGMFVOaA0Alk

 

"I put a spell on you". Esta canção é de Screamin ' Jay Hawkins e foi gravada em 1956. Existem muitas versões, mas esta é a original. Cf. pág 265: "Voltemos a Screamin ' Jay Hawkins. Era um homem que gostava de se apresentar vestido de leopardo, com ossos a atravessarem-lhe o nariz. Ficou muito conhecido por I put a spell on you. Põe a tocar, Beatriz - disse o grego."

"i put a spell on you screamin jay hawkins" https://share.google/KXU3i8YNosrYwSYOW

Da pesquisa realizada por alguns dos membros do Clube, resultou um brinde à obra de Afonso Cruz com uma Ginjinha e uma banda sonora. 










quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CLUBE DE LEITURA - SETEMBRO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 24 setembro, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Flores" de Afonso Cruz.


Sinopse: Um homem sofre desmesuradamente com as notícias que lê nos jornais, com todas as tragédias humanas a que assiste. Um dia depara-se com o facto de não se lembrar do seu primeiro beijo, dos jogos de bola nas ruas da aldeia ou de ver uma mulher nua. Outro homem, seu vizinho, passa bem com as desgraças do mundo, mas perde a cabeça quando vê um chapéu pousado no lugar errado. Contudo, talvez por se lembrar bem da magia do primeiro beijo - e constatar o quanto a sua vida se afastou dela - decide ajudar o vizinho a recuperar todas as memórias perdidas. Uma história inquietante sobre a memória e o que resta de nós quando a perdemos.

Um romance comovente sobre o amor e o que este precisa de ser para merecer esse nome.
«Viver não tem nada a ver com isso que as pessoas fazem todos os dias, viver é precisamente o oposto, é aquilo que não fazemos todos os dias.»

Quem é Afonso Cruz? É escritor e artista multidisciplinar (ilustração, fotografia e música), e, nos tempos livres, ainda faz cerveja. Trabalhou como cineasta durante mais de uma década.
Tem publicados mais de 40 livros, traduzidos em mais de 20 línguas e nos mais variados géneros literários, desde conto, romance, poesia, ensaio, teatro, foto-texto, literatura de viagens e literatura para a infância. Em menos de 20 anos de carreira literária, já foi distinguido com importantes prémios nacionais e internacionais, entre os quais se destacam: o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, o Prémio Fernando Namora, o Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga, o Prémio SPA para Melhor Livro Infantil (2011) e o Prémio SPA para Melhor Livro de Ficção Narrativa (2019), o Prémio Liter.


ário Maria Rosa Colaço, o Prémio da União Europeia para a Literatura, o Prémio da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil e o Prémio Ibérico Álvaro Magalhães.

Assina, desde 2013, uma crónica mensal no Jornal de Letras, Artes e Ideias, sob o título «Paralaxe», e tem uma coluna de opinião no Sapo.





domingo, 2 de agosto de 2026

CLUBE DE LEITURA - JULHO 2026

Na passada quinta-feira, dia 30 de julho, pelas 21 horas, decorrreu a sessão do Clube de Leitura para a abordagem da obra "A visão das plantas" de Djaimilia Pereira de Almeida, escritora de origem angolana com muito sucesso em todo o mundo, em que quase todas as suas obras têm sido premiadas.

Inspirada no livro “Os pescadores” de Raúl Brandão, Djaimilia Pereira de Almeida apresenta-nos o Capitão Celestino de volta à casa materna, após uma longa carreira como negreiro, ao longo da qual cometeu as maiores atrocidades. A casa, há muito abandonada, teima em existir, mas é no quintal que Celestino encontra a razão de ser dos seus dias.

Na ânsia de expiar o passado criminoso que o persegue, incapaz de qualquer emoção,  livra-se do que resta da família…

Qual asceta penitente, Celestino comunga com a natureza para morrer.

Em contraste com a casa, o quintal exuberante torna-se na razão de ser dos seus dias…

Ignorando a vizinhança e evitando o padre, que o quer confessar a todo o custo, Celestino embrenha-se a fundo naquela missão, confundindo-se com os elementos da natureza até “deixar de ser gente”.

Esse seu desapego às coisas do mundo manifesta-se no isolamento, mas também na recusa de qualquer interação, salvo exceções muito pontuais, em que inventa histórias para amedrontar as crianças.

Nos momentos de loucura, febril, o negreiro recorda atrocidades cometidas enquanto pirata e quando “revê” a menina holandesa, ainda tem ganas de dar uso à navalha.

Mais velho, mais fraco e quase cego, Celestino torna-se escravo das plantas. 

Fecha-se, definha, apenas acompanhado pelos fantasmas que teimavam em voltar à noite… Perturbado divaga, sonha, mas sem nunca demonstrar arrependimento ou remorsos pelas atrocidades cometidas enquanto negreiro, inviabilizando assim qualquer redenção.

Perto do fim, o padre visita-o… as crianças deixam de aparecer… A degradação física agudiza-se, os momentos de sonambulismo e as visões fantasmagóricas aumentam…

Por caridade, numa rara visita, o primo Manuel ainda o leva a ver o mar, mas Celestino já não tem noção de onde está …  O fim precipita-se… revê nas águas o reflexo da sua cuidadora holandesa, caminhando para ele de olhos vendados…

À saída da casa de Celestino, a visão das plantas revela-se, pela última vez, em todo o seu esplendor ao padre Alfredo, tal aleluia pela passagem da alma do capitão.

Luísa Correia (membro do Clube de Leitura)










segunda-feira, 29 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA - JULHO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 30 de julho, pelas 21h00.

O livro selecionado será "A visão das plantas" de Djaimilia Pereira de Almeida.



Sinopse: Foi ao ler Os Pescadores de Raul Brandão que Djaimilia Pereira de Almeida encontrou a frase que haveria de inspirar anos depois A Visão das Plantas.

Raul Brandão fala de personagens que conheceu quando era levado pela mão até ao colégio. Entre eles, estava o capitão Celestino: "[T]endo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. Falava pouco. […] A sua vida anterior fora misteriosa e feroz. De uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil. Outras coisas piores se diziam do capitão Celestino... Mas o que eu sei com exactidão a seu respeito é que para alporques de cravos não havia outro no mundo."


Quem é Djaimilia Pereira de Almeida?



Djaimilia Pereira de Almeida é autora de vários livros, entre os quais Luanda, Lisboa, Paraíso, As Telefones, Três Histórias de Esquecimento, Ferry e Toda a Ferida É Uma Beleza, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2024. Os seus livros e ensaios receberam vários prémios, incluindo o Prémio Oceanos, e estão traduzidos em dez línguas. Em 2023, Djaimilia recebeu o Prémio FLUL Alumni, atribuído pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou. Em 2025, recebeu o Prémio Vergílio Ferreira, atribuído pela Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra literária. Ensinou na New York University. Escreve na Quatro Cinco Um e no Observador. Nasceu em Luanda.

CLUBE DE LEITURA - JUNHO 2026

Na passada 5ª feira, dia 25 de junho, pelas 21 horas, decorreu a sessão do mês, com a leitura da obra "Crescer à sombra" de Rita Redshoes, dedicado aos avós, que a ajudaram a criar e aos quais tem uma grande ligação afetiva.

“Sinto-me pequenina, tão indefesa sempre que me acontece uma contrariedade ou algo de novo. O mundo parece-me um monstro. O mundo é um monstro, talvez pior que um monstro. Eu, uma migalha, insignificante, macilenta, com olheiras profundas, uma criança perdida num infinito ameaçador”

Esta frase resume muito bem o conteúdo do livro.
A Marta, de nove anos, fui eu, foste tu, fomos nós.

Rita Redshoes, numa linguagem simples, humana e cativante, descreve-nos, de certa forma, a todos num momento da nossa infância/juventude, ora focando nas relações pessoais, ora trazendo à tona os vários conflitos internos que desafiam cada um de nós na nossa fase de crescimento.

Não me senti apenas leitora passiva. Quando Marta fazia de tudo para não ir à escola, a Juliana também não queria ir à escola; quando a Marta rejubilava com os três meses de férias e de brincadeira, a Juliana sentia-se de férias também; quando a Marta mergulhava num sentimento de tristeza por causa dos pais, dos avós, ou da irmã, a Juliana mergulhava nesse mesmo mar melancólico que afligia a Marta; quando a Marta percebeu que o seu corpo estava a mudar e entrou em negação, a Juliana relembrou que não foi só ela qu, no passado, se sentiu incomodada com as mudanças que a puberdade traz.

Perante o “monstro-mundo” que se coloca à sua frente, a Marta tem dificuldade em sair da zona de conforto e o seu crescimento torna-se lento e doloroso. Mas, como todos sabemos, é inevitável crescer. “Crescer à sombra” é um retrato simples e sensível sobre as dores do crescimento.

Juliana Marques (autora desta seleção literária)









terça-feira, 2 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA - JUNHO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 25 de junho, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Crescer à Sombra" de Rita Redshoes


Sinopse: 
Marta tem 9 anos e uma dentição variável - pelo menos é o que nos garante. Detesta a escola mas cresce livre, no campo, por vezes feliz, outras, assombrada por personagens reais e imaginadas. As reais, em forma de adultos assustadores cujas existências não compreende, e as outras criadas por uma imaginação de quem cresce com muito tempo para pensar.


Numa narrativa ora terna, ora melancólica, ora carregada de humor, Rita Redshoes usa a própria infância para construir uma história com tanto de verdade como de ficção, lembrando em iguais medidas Tom Sawyer e O Meu Pé de Laranja Lima: a viagem de uma menina que se descobre enquanto tenta perceber o mundo.

Quem é Rita Redshoes?




É uma compositora, arranjadora, produtora e letrista que conta com seis discos na sua carreira a solo e atuações por várias partes do mundo como os EUA, Holanda, Suécia, Inglaterra, África do Sul, Macau, Timor ou França. Iniciou o seu percurso como baterista num grupo de teatro de escola (1997), passou por muitos projetos musicais como autora e intérprete, onde tocou diferentes instrumentos e gravou vários discos. Compôs bandas sonoras premiadas para teatro e cinema, também com discos editados nesta área e criou vários espetáculos levados a cena por todo o país. Estudou canto lírico e piano finalizando o Curso Profissional de Música e Novas Tecnologias. É licenciada em Psicologia Clínica e pós-graduada em Escrita de Ficção. Crescer à Sombra é o seu quinto livro e o primeiro editado pela Penguin Random House.

CLUBE DE LEITURA - MAIO 2026

Na passada 5ª feira, dia 28 de maio, pelas 21 horas, decorreu a sessão do mês, com a leitura da obra "Pés de barro" de de Nuno Duarte, vencedor do Prémio Leya 2024.

A obra aborda o período da construção da Ponte rodoferroviária sobre o rio Tejo que liga Lisboa à cidade de Almada, batizada como ponte Salazar, atualmente conhecida como a Ponte 25 de Abril.

A sua construção foi à época um verdadeiro acontecimento, foi um marco da engenharia em Portugal, envolvendo cerca de três mil trabalhadores, iniciou-se em 5 de novembro de 1962, tendo sido inaugurada em 6 de agosto de 1966, com uma extensão de 2.278 metros. Foi projetada pelo arquiteto Ray M. Boynton, envolvendo também engenheiros americanos.

Apesar da ficção, "Pés de barro" quase funciona como documento histórico duma época, tal a fiabilidade do relato.

A forte marca ideológica do texto pode naturalmente condicionar a sua apreciação literária.

Nuno Duarte consegue sabiamente integrar e cruzar num variado conjunto de histórias que, no seu todo, funcionam como peças de um puzzle, que nos vai dando a conhecer como era a vida em Portugal, no tempo da ditadura salazarista. Um regime autoritário, repressivo, discriminatório, violento, etc.

Na narrativa o lugar da acção é a zona de Alcântara, à beira Tejo. Excelente escolha já que aí conviveram em confronto, entre 1962 e 1966  dois mundos opostos.

Em Alcântara iniciou-se a construção da ponte sobre o Tejo - símbolo da modernidade, da opulência, da pretensa visão de futuro do regime.

Portugal está na vanguarda do mundo, apesar das más condições de vida e de segurança dos  milhares de trabalhadores que faziam a ponte.

Em Alcântara era também o cais de embarque de milhões de jovens adultos que iam para a guerra nas colónias africanas. A estranheza da situação, os perigos da guerra, a vida suspensa por vários anos. Muitos regressavam sem vida, estropiados, mentalmente destruídos.

É para o Pátio da Cabrinha, fortemente marcado pela construção da ponte que Vítor Tirapicos vai morar com os tios Ema e Artur. É aí que conhece Dália, o seu grande amor. É aí que vive o drama da sua relação com o pai. É aí que sofre com o sofrimento do seu irmão, Quim. E que é perseguido pela Pide. E que se desentende violentamente com o sucateiro Josué. E que acaba preso. E muito, muito mais...

O pátio é o lugar da gente humilde que aceita muitas vezes quase conformada a miséria, a obediência, a subserviência, a fome, o analfabetismo, a intolerância, a ausência da liberdade e de voz.

Nuno Duarte emociona-nos com o seu texto poderoso, muito reflexivo, comovente, oscilante entre a crueza da realidade e a esperança no futuro.

Confesso que não gostei da apoteose final.

Sei que foi, como é sempre, a opção do escritor. E não quero sentir-me como a D. Alberti, da "Misericórdia", mas senti algum desconforto na leitura, Pela descontinuidade do texto, no conteúdo, mas também na forma, pelo excesso de inauguração e pormenor descritivo que, em minha opinião desvalorizou a metáfora.

Maria Júlia


Cada palavra de "Pés de barro", merece o prémio que o livro ganhou. Mesmo os palavrões, tão assertivos, tão usados no momento certo, a raiva, o ódio, o sofrimento, exigiram-nos.

Pés de barro é um livro de contrastes. Um livro que, com muita ironia, deixa entranhado no leitor o cheiro putrefacto da fome, da miséria, da guerra, do sofrimento de um povo vítima da ditadura salazarista que contrasta com o maravilhoso cheiro do chocolate produzido na fábrica Regina. O povo português, saloio, pacóvio, analfabeto e servil, contrasta com o povo americano, evoluído e civilizado, que projetou a ponte sobre o rio Tejo. A bondade, a ternura de algumas personagens contrasta com a rigidez, a estupidez e o mau caráter de outras.

Um livro doloroso, que aperta o coração e faz soltar lágrimas com as descrções das atrocidades cometidas pela PIDE, do horror da guerra no Ultramar, tudo em nome da pátria.

Um livro em que Deus é posto em causa pois permite tanto sofrimento e tanta dor aos mais vulneráveis que a Ele se agarram e nada recebem em troca, a não ser injustiças e luto: "Deus estava lá em África quando ele pisara a mina mas preferia olhar para o lado".

E só uma revolução poderia preencher o vazio destas vidas sofridas, deixar de ser vazio para ser esperança.

Ana Paula Oliveira 




sábado, 2 de maio de 2026

CLUBE DE LEITURA - MAIO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 28 de maio, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Pés de barro" de Nuno Duarte

Sinopse: Estamos em 1962, num país orgulhosamente só, e vem aí a construção da primeira ponte suspensa sobre o Tejo, para a qual vão ser precisos cerca de três mil homens. A obra irá mudar para sempre a paisagem da capital, muito especialmente para quem vive em Alcântara, como é agora o caso de Victor Tirapicos, instalado na casa dos tios depois de ter envergonhado o pai com dois anos de cadeia só por ter roubado pão e batatas para fintar a miséria.


É, de resto, pelos olhos deste serralheiro de vinte e dois anos que veremos a ponte erguer-se um pouco mais todos os dias e, ali mesmo ao lado, partirem os navios cheios de rapazes para a guerra do Ultramar, donde muitos acabarão por voltar estropiados, endoidecidos ou mortos.

Porém, apesar de a modernidade parecer estar a matar a vida e os costumes do pátio operário onde convivem (amigavelmente ou nem tanto) uma série de figuras inesquecíveis - entre elas o mestre sapateiro que faz as chuteiras para o Atlético Clube de Portugal e um velho culto que aprende a desler -, Victor Tirapicos encontra o amor de uma rapariga que é muda mas consegue escutar o planeta, pressentindo a derrocada da estação do Cais do Sodré e outra catástrofe ainda maior, que se calhar tem pés de barro e só acontece neste romance, mas bem podia ter acontecido.

Quem é Nuno Duarte?





Nasceu em Sintra, em 1973. Quando abriu os pulmões, já se respirava em liberdade, mas, para efeitos literários, pode afiançar, sem faltar à verdade, que ainda viveu no tempo da outra senhora. Quando abriu os olhos, já havia livros em casa. Havia os do pai, que eram do Steinbeck, do Dostoiévski, do Hemingway, do Ferreira de Castro e do Saramago; e havia os de banda desenhada, que eram do Goscinny, do Hergé, do Edgar P. Jacobs, do Christin e do Moebius. Estudou design gráfico no Ar.Co e começou uma carreira na publicidade onde foi diretor criativo de algumas das principais agências do mercado e amealhou várias distinções nacionais e internacionais. O gosto pela leitura e pela escrita, mas, sobretudo, a necessidade de perceber como se fazia, afinal, um daqueles livros como os que havia em casa, levaram-no a tentar. E a tentar. E a tentar de novo. Pés de Barro é o seu primeiro romance.



CLUBE DE LEITURA - ABRIL 2026

Na passada quinta-feira, dia 30 de abril, pelas 21h00, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura, para a abordagem e discussão da obra "Misericórdia" de Lídia Jorge.

Esta obra recebeu o Grande Prémio do Romance e Novela, em 2022, da APE e o Prémio Melhor Livro Lusófano, publicado em França, atribuído pela revista Tranfuge e considerado já como uma obra prima de Lídia Jorge.

É considerada uma obra audaciosa, com profunda humanidade num estilo literário refinado, de leitura rica e complexa, mas acessível.

Decorre no lar da Santa Casa da Misericórdia de Boliquieme, apelidado de Hotel Paraíso, no Algarve, durante o período da pandemia do covid-19, um tempo bizarro, num espaço concentracionário e de confinamento. Neste hotel, vão-se perfilando ao longo da obra a Dona Alberti e as mais diversas personagens - idosos e cuidadores - e as vivências num ambiente muito semelhante a um qualquer lar do mundo.

Este livro foi escrito a pedido da mãe da autora, tendo sido interpretado como um grito, um clamor, vindo da solidão e do desenraizamento da espera.

É admirável como a autora consegue que ele seja ao mesmo tempo brutal e esperançoso, irónico e amável, misto de choro e riso.

Para Tolentino de Mendonça, esta obra desperta para a atenção que todos devemos ter para com o envelhecimento, o cuidado e a importância de tentarmos dar sentido à vida dos idosos até ao fim e à "necessidade de compaixão e valorização da experiência humana".

Misericórdia é um convite à reflexão sobre o tratamento de idosos e do valor da humanidade na interação social. 












quarta-feira, 1 de abril de 2026

CLUBE DE LEITURA - ABRL 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 26 de abril, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Misericórdia" de Lídia Jorge.


 Sinopse: 

Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores

Prémio Urbano Tavares Rodrigues

Prémio do PEN Clube Português
Prémio Fernando Namora
Prémio Médicis

Misericórdia é um dos livros mais audaciosos da literatura portuguesa dos últimos tempos. Como a autora consegue que ele seja ao mesmo tempo brutal e esperançoso, irónico e amável, misto de choro e riso, é uma verdadeira proeza.

Não são necessárias muitas palavras para apresentá-lo - o diário do último ano de vida de uma mulher incorpora no seu relato o fulgor das existências cruzadas num ambiente concentracionário, e transforma-se no testemunho admirável da condição humana.

Isso acontece porque o milagre da literatura está presente. Nos tempos que correm, depois do enfrentamento global de provas tão decisivas para a Humanidade, esperávamos por um livro assim. Lídia Jorge escreveu-o.

Quem é Lídia Jorge?




Romancista e contista portuguesa. Nasceu em 1946, no Algarve. Viveu os anos mais conturbados da Guerra Colonial em África. Foi membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social. É professora do ensino secundário e publica regularmente artigos na imprensa. O tema da mulher e da sua solidão é uma preocupação central da obra de Lídia Jorge, como, por exemplo, em Notícia da Cidade Silvestre (1984) e A Costa dos Murmúrios (1988). O Dia dos Prodigíos (1979), outro romance de relevo, encerra uma grande capacidade inventiva, retratando o marasmo e a desadaptação de uma pequena aldeia algarvia. O Vento Assobiando nas Gruas (2002) é mais um romance da autora e aborda a relação entre uma mulher branca com um homem africano e o seu comportamento perante uma sociedade de contrastes. Este seu livro venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores em 2003.

Venceu o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas 2020.
Venceu o Prémio Pessoa de 2025.

terça-feira, 31 de março de 2026

CLUBE DE LEITURA - MARÇO

Como a sessão do Clube do dia 26 de fevereiro foi suspensa, devido às màs condições da BM,  foi adiada para o mês seguinte.

Assim, na passada quinta-feira, dia 26 de março, pelas 21h00, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura, para a abordagem e discussão da obra "Paraíso" de Addulrazak Gurnah, seguida 

de uma pequena homenagem à Poesia, com declamação de poemas dos poetas homenageados no Festival da Poesia à Mesa, deste ano.

Gurnah tem vários livros publicados, aos quais têm sido atribuídos diversos prémios entre os quais o Prémio Nobel da Literatura em 2021, justificado "pela forma determinada e humana com que aborda e aprofunda as consequências do colonialismo e o destino dos refugiados no fosso entre culturas e continentes".

Nesta obra, com uma escrita clara e fluída, somos transportados pelo continente africano, inicialmente pela sua parte oriental até ao interior, no coração de África, provavelmente na Tanzânia, mum contexto de mudança política, em inícios do século XX.

Seguimos a infância e juventude de Ysuf, um belo e puro menino de 12 anos que é vendido pelo seu pai como escravo a um rico comerciante árabe, Aziz, a troco de dívidas contraídas pelo seu pai. 

Começa por trabalhar na mercearia onde conhece Khalil, com um percurso de vida muito semelhante ao seu. A partir daí tem uma relação fraternal com este personagem, aprendendo a ler, a escrever a contar e escutar muitos outros segredos que se tornam essenciais para conseguir sobreviver naquele mundo.

Mais tarde, vai participar numa perigosa expedição comercial ao interior do continente, uma viagem de iniciação pelo coração das trevas, ao longo de uma paisagem bela e selvagem, que o levará a descobrir um território povoado por tribos hostis, africanos muçulmanos, comerciantes indianos e agricultores europeus, um paraíso ameaçado, em vésperas da Primeira Guerra Mundial.

Estamos perante um romance, com ficção história e literatura de viagens num mosaico de mitos, sonhos, tradições bíblicas e corânicas, onde são descritas as feridas vivas de um continente ainda virgem em vias de sofrer uma nova vaga de colonização.

Não temos uma África romantizada, com a sua beleza natural exuberante, com horizontes, sentidos, emoções, mas sim uma África em que os senhores são os donos dos lugares mais encantadores e onde a brutalidade e injustiça são a normalidade, sempre latentes durante toda a obra.

Será uma espécie de Paraíso, mas só para alguns.