segunda-feira, 29 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA - JULHO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 30 de julho, pelas 21h00.

O livro selecionado será "A visão das plantas" de Djaimilia Pereira de Almeida.



Sinopse: Foi ao ler Os Pescadores de Raul Brandão que Djaimilia Pereira de Almeida encontrou a frase que haveria de inspirar anos depois A Visão das Plantas.

Raul Brandão fala de personagens que conheceu quando era levado pela mão até ao colégio. Entre eles, estava o capitão Celestino: "[T]endo começado a vida como pirata a acabou como um santo, cultivando com esmero um quintal de que ainda hoje me não lembro sem inveja. Falava pouco. […] A sua vida anterior fora misteriosa e feroz. De uma vez com sacos de cal despejados no porão sufocara uma revolta de pretos, que ia buscar à costa de África para vender no Brasil. Outras coisas piores se diziam do capitão Celestino... Mas o que eu sei com exactidão a seu respeito é que para alporques de cravos não havia outro no mundo."


Quem é Djaimilia Pereira de Almeida?



Djaimilia Pereira de Almeida é autora de vários livros, entre os quais Luanda, Lisboa, Paraíso, As Telefones, Três Histórias de Esquecimento, Ferry e Toda a Ferida É Uma Beleza, vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela APE/DGLAB 2024. Os seus livros e ensaios receberam vários prémios, incluindo o Prémio Oceanos, e estão traduzidos em dez línguas. Em 2023, Djaimilia recebeu o Prémio FLUL Alumni, atribuído pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou. Em 2025, recebeu o Prémio Vergílio Ferreira, atribuído pela Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra literária. Ensinou na New York University. Escreve na Quatro Cinco Um e no Observador. Nasceu em Luanda.

CLUBE DE LEITURA - JUNHO 2026

Na passada 5ª feira, dia 25 de junho, pelas 21 horas, decorreu a sessão do mês, com a leitura da obra "Crescer à sombra" de Rita Redshoes, dedicado aos avós, que a ajudaram a criar e aos quais tem uma grande ligação afetiva.

Sinto-me pequenina, tão indefesa sempre que me acontece uma contrariedade ou algo de novo. O mundo parece-me um monstro. O mundo é um monstro, talvez pior que um monstro. Eu, uma migalha, insignificante, macilenta, com olheiras profundas, uma criança perdida num infinito ameaçador

Esta frase resume muito bem o conteúdo do livro.
A Marta, de nove anos, fui eu, foste tu, fomos nós.

Rita Redshoes, numa linguagem simples, humana e cativante, descreve-nos, de certa forma, a todos num momento da nossa infância/juventude, ora focando nas relações pessoais, ora trazendo à tona os vários conflitos internos que desafiam cada um de nós na nossa fase de crescimento.

Não me senti apenas leitora passiva. Quando Marta fazia de tudo para não ir à escola, a Juliana também não queria ir à escola; quando a Marta rejubilava com os três meses de férias e de brincadeira, a Juliana sentia-se de férias também; quando a Marta mergulhava num sentimento de tristeza por causa dos pais, dos avós, ou da irmã, a Juliana mergulhava nesse mesmo mar melancólico que afligia a Marta; quando a Marta percebeu que o seu corpo estava a mudar e entrou em negação, a Juliana relembrou que não foi só ela qu, no passado, se sentiu incomodada com as mudanças que a puberdade traz.

Perante o “monstro-mundo” que se coloca à sua frente, a Marta tem dificuldade em sair da zona de conforto e o seu crescimento torna-se lento e doloroso. Mas, como todos sabemos, é inevitável crescer. “Crescer à sombra” é um retrato simples e sensível sobre as dores do crescimento.

Juliana Marques (autora desta seleção literária)









terça-feira, 2 de junho de 2026

CLUBE DE LEITURA - JUNHO 2026

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. 

As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

O Clube de Leitura reunirá a 25 de junho, pelas 21h00.

O livro selecionado será "Crescer à Sombra" de Rita Redshoes


Sinopse: 
Marta tem 9 anos e uma dentição variável - pelo menos é o que nos garante. Detesta a escola mas cresce livre, no campo, por vezes feliz, outras, assombrada por personagens reais e imaginadas. As reais, em forma de adultos assustadores cujas existências não compreende, e as outras criadas por uma imaginação de quem cresce com muito tempo para pensar.


Numa narrativa ora terna, ora melancólica, ora carregada de humor, Rita Redshoes usa a própria infância para construir uma história com tanto de verdade como de ficção, lembrando em iguais medidas Tom Sawyer e O Meu Pé de Laranja Lima: a viagem de uma menina que se descobre enquanto tenta perceber o mundo.

Quem é Rita Redshoes?




É uma compositora, arranjadora, produtora e letrista que conta com seis discos na sua carreira a solo e atuações por várias partes do mundo como os EUA, Holanda, Suécia, Inglaterra, África do Sul, Macau, Timor ou França. Iniciou o seu percurso como baterista num grupo de teatro de escola (1997), passou por muitos projetos musicais como autora e intérprete, onde tocou diferentes instrumentos e gravou vários discos. Compôs bandas sonoras premiadas para teatro e cinema, também com discos editados nesta área e criou vários espetáculos levados a cena por todo o país. Estudou canto lírico e piano finalizando o Curso Profissional de Música e Novas Tecnologias. É licenciada em Psicologia Clínica e pós-graduada em Escrita de Ficção. Crescer à Sombra é o seu quinto livro e o primeiro editado pela Penguin Random House.

CLUBE DE LEITURA - MAIO 2026

Na passada 5ª feira, dia 28 de maio, pelas 21 horas, decorreu a sessão do mês, com a leitura da obra "Pés de barro" de de Nuno Duarte, vencedor do Prémio Leya 2024.

A obra aborda o período da construção da Ponte rodoferroviária sobre o rio Tejo que liga Lisboa à cidade de Almada, batizada como ponte Salazar, atualmente conhecida como a Ponte 25 de Abril.

A sua construção foi à época um verdadeiro acontecimento, foi um marco da engenharia em Portugal, envolvendo cerca de três mil trabalhadores, iniciou-se em 5 de novembro de 1962, tendo sido inaugurada em 6 de agosto de 1966, com uma extensão de 2.278 metros. Foi projetada pelo arquiteto Ray M. Boynton, envolvendo também engenheiros americanos.

Apesar da ficção, "Pés de barro" quase funciona como documento histórico duma época, tal a fiabilidade do relato.

A forte marca ideológica do texto pode naturalmente condicionar a sua apreciação literária.

Nuno Duarte consegue sabiamente integrar e cruzar num variado conjunto de histórias que, no seu todo, funcionam como peças de um puzzle, que nos vai dando a conhecer como era a vida em Portugal, no tempo da ditadura salazarista. Um regime autoritário, repressivo, discriminatório, violento, etc.

Na narrativa o lugar da acção é a zona de Alcântara, à beira Tejo. Excelente escolha já que aí conviveram em confronto, entre 1962 e 1966  dois mundos opostos.

Em Alcântara iniciou-se a construção da ponte sobre o Tejo - símbolo da modernidade, da opulência, da pretensa visão de futuro do regime.

Portugal está na vanguarda do mundo, apesar das más condições de vida e de segurança dos  milhares de trabalhadores que faziam a ponte.

Em Alcântara era também o cais de embarque de milhões de jovens adultos que iam para a guerra nas colónias africanas. A estranheza da situação, os perigos da guerra, a vida suspensa por vários anos. Muitos regressavam sem vida, estropiados, mentalmente destruídos.

É para o Pátio da Cabrinha, fortemente marcado pela construção da ponte que Vítor Tirapicos vai morar com os tios Ema e Artur. É aí que conhece Dália, o seu grande amor. É aí que vive o drama da sua relação com o pai. É aí que sofre com o sofrimento do seu irmão, Quim. E que é perseguido pela Pide. E que se desentende violentamente com o sucateiro Josué. E que acaba preso. E muito, muito mais...

O pátio é o lugar da gente humilde que aceita muitas vezes quase conformada a miséria, a obediência, a subserviência, a fome, o analfabetismo, a intolerância, a ausência da liberdade e de voz.

Nuno Duarte emociona-nos com o seu texto poderoso, muito reflexivo, comovente, oscilante entre a crueza da realidade e a esperança no futuro.

Confesso que não gostei da apoteose final.

Sei que foi, como é sempre, a opção do escritor. E não quero sentir-me como a D. Alberti, da "Misericórdia", mas senti algum desconforto na leitura, Pela descontinuidade do texto, no conteúdo, mas também na forma, pelo excesso de inauguração e pormenor descritivo que, em minha opinião desvalorizou a metáfora.

Maria Júlia


Cada palavra de "Pés de barro", merece o prémio que o livro ganhou. Mesmo os palavrões, tão assertivos, tão usados no momento certo, a raiva, o ódio, o sofrimento, exigiram-nos.

Pés de barro é um livro de contrastes. Um livro que, com muita ironia, deixa entranhado no leitor o cheiro putrefacto da fome, da miséria, da guerra, do sofrimento de um povo vítima da ditadura salazarista que contrasta com o maravilhoso cheiro do chocolate produzido na fábrica Regina. O povo português, saloio, pacóvio, analfabeto e servil, contrasta com o povo americano, evoluído e civilizado, que projetou a ponte sobre o rio Tejo. A bondade, a ternura de algumas personagens contrasta com a rigidez, a estupidez e o mau caráter de outras.

Um livro doloroso, que aperta o coração e faz soltar lágrimas com as descrções das atrocidades cometidas pela PIDE, do horror da guerra no Ultramar, tudo em nome da pátria.

Um livro em que Deus é posto em causa pois permite tanto sofrimento e tanta dor aos mais vulneráveis que a Ele se agarram e nada recebem em troca, a não ser injustiças e luto: "Deus estava lá em África quando ele pisara a mina mas preferia olhar para o lado".

E só uma revolução poderia preencher o vazio destas vidas sofridas, deixar de ser vazio para ser esperança.

Ana Paula Oliveira