Na passada 5ª feira, dia 28 de maio, pelas 21 horas, decorreu a sessão do mês, com a leitura da obra "Pés de barro" de de Nuno Duarte, vencedor do Prémio Leya 2024.
A obra aborda o período da construção da Ponte rodoferroviária sobre o rio Tejo que liga Lisboa à cidade de Almada, batizada como ponte Salazar, atualmente conhecida como a Ponte 25 de Abril.
A sua construção foi à época um verdadeiro acontecimento, foi um marco da engenharia em Portugal, envolvendo cerca de três mil trabalhadores, iniciou-se em 5 de novembro de 1962, tendo sido inaugurada em 6 de agosto de 1966, com uma extensão de 2.278 metros. Foi projetada pelo arquiteto Ray M. Boynton, envolvendo também engenheiros americanos.
Apesar da ficção, "Pés de barro" quase funciona como documento histórico duma época, tal a fiabilidade do relato.
A forte marca ideológica do texto pode naturalmente condicionar a sua apreciação literária.
Nuno Duarte consegue sabiamente integrar e cruzar num variado conjunto de histórias que, no seu todo, funcionam como peças de um puzzle, que nos vai dando a conhecer como era a vida em Portugal, no tempo da ditadura salazarista. Um regime autoritário, repressivo, discriminatório, violento, etc.
Na narrativa o lugar da acção é a zona de Alcântara, à beira Tejo. Excelente escolha já que aí conviveram em confronto, entre 1962 e 1966 dois mundos opostos.
Em Alcântara iniciou-se a construção da ponte sobre o Tejo - símbolo da modernidade, da opulência, da pretensa visão de futuro do regime.
Portugal está na vanguarda do mundo, apesar das más condições de vida e de segurança dos milhares de trabalhadores que faziam a ponte.
Em Alcântara era também o cais de embarque de milhões de jovens adultos que iam para a guerra nas colónias africanas. A estranheza da situação, os perigos da guerra, a vida suspensa por vários anos. Muitos regressavam sem vida, estropiados, mentalmente destruídos.
É para o Pátio da Cabrinha, fortemente marcado pela construção da ponte que Vítor Tirapicos vai morar com os tios Ema e Artur. É aí que conhece Dália, o seu grande amor. É aí que vive o drama da sua relação com o pai. É aí que sofre com o sofrimento do seu irmão, Quim. E que é perseguido pela Pide. E que se desentende violentamente com o sucateiro Josué. E que acaba preso. E muito, muito mais...
O pátio é o lugar da gente humilde que aceita muitas vezes quase conformada a miséria, a obediência, a subserviência, a fome, o analfabetismo, a intolerância, a ausência da liberdade e de voz.
Nuno Duarte emociona-nos com o seu texto poderoso, muito reflexivo, comovente, oscilante entre a crueza da realidade e a esperança no futuro.
Confesso que não gostei da apoteose final.
Sei que foi, como é sempre, a opção do escritor. E não quero sentir-me como a D. Alberti, da "Misericórdia", mas senti algum desconforto na leitura, Pela descontinuidade do texto, no conteúdo, mas também na forma, pelo excesso de inauguração e pormenor descritivo que, em minha opinião desvalorizou a metáfora.
Maria Júlia
Cada palavra de "Pés de barro", merece o prémio que o livro ganhou. Mesmo os palavrões, tão assertivos, tão usados no momento certo, a raiva, o ódio, o sofrimento, exigiram-nos.
Pés de barro é um livro de contrastes. Um livro que, com muita ironia, deixa entranhado no leitor o cheiro putrefacto da fome, da miséria, da guerra, do sofrimento de um povo vítima da ditadura salazarista que contrasta com o maravilhoso cheiro do chocolate produzido na fábrica Regina. O povo português, saloio, pacóvio, analfabeto e servil, contrasta com o povo americano, evoluído e civilizado, que projetou a ponte sobre o rio Tejo. A bondade, a ternura de algumas personagens contrasta com a rigidez, a estupidez e o mau caráter de outras.
Um livro doloroso, que aperta o coração e faz soltar lágrimas com as descrções das atrocidades cometidas pela PIDE, do horror da guerra no Ultramar, tudo em nome da pátria.
Um livro em que Deus é posto em causa pois permite tanto sofrimento e tanta dor aos mais vulneráveis que a Ele se agarram e nada recebem em troca, a não ser injustiças e luto: "Deus estava lá em África quando ele pisara a mina mas preferia olhar para o lado".
E só uma revolução poderia preencher o vazio destas vidas sofridas, deixar de ser vazio para ser esperança.
Ana Paula Oliveira