terça-feira, 3 de dezembro de 2019

CLUBE DE LEITURA - DEZEMBRO


Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.

Livro indicado: "O terrorista elegante e outras histórias" de Mia Couto e José Eduardo Agualusa 

Data: 19 dezembro, 21h00 às 22h00
Sinopse: Três novelas curtas, deliciosas e cheias de humor e suspense, de dois dos autores mais populares e reconhecidos da ficção em língua portuguesa.

Na história «O terrorista elegante» (escrita a quatro mãos sob um alpendre, em Boane, Moçambique), que dá título ao livro, um angolano é preso em Portugal por suspeita de participação em atos de terrorismo. O homem alega ser capaz de voar e conversa com um passarinho na prisão, que parece dar-lhe as orientações necessárias para que cumpra a sua missão.


«Venho aqui para matar.» É assim que o protagonista de «Chovem amores na rua do matador», a segunda história, pretende finalmente fazer as pazes com o seu passado: matando as três mulheres da sua vida.


A noite da cidade está mergulhada em caos e, enquanto o conflito se desenrola nas ruas escuras, um estranho mascarado procura alguém para matar. Em «A caixa preta» (tal como a anterior, a terceira história foi escrita em lugares diferentes, trocando mensagens, um autor acrescentando o texto do outro), gerações da mesma família são obrigadas a enfrentar os seus segredos mais bem guardados.
As três novelas que constituem este livro têm por base peças de teatro escritas em conjunto pelos autores e encomendadas pelos grupos de teatro A Barraca, de Lisboa, e Trigo Limpo - Teatro ACERT, de Tondela. Porém, depois de conversas informais na bela e histórica cidade de Paraty, no Brasil, essas peças foram reescritas pelos autores sob a forma de contos.
Dois dos maiores autores de língua portuguesa juntam-se para proveito e alegria dos seus leitores.

Opiniões:

  • Quando dois talentosos amigos escritores se juntam, o resultado é este.
Teresa Fastudo | 01-11-2019 
José Eduardo Agualusa e Mia Couto já habituaram os seus leitores a projetos diversificados, embora sempre marcados pela beleza das palavras, pelas personagens fortes e cheias de vida, por narrativas que nos levam a viajar mesmo quando não podemos sair do local onde nos encontramos. Os seus leitores conhecem a amizade que une os dois escritores africanos, pelo que este projeto surge como uma surpresa anunciada. Anunciada e muito bem-vinda! 
  • Brilhantes
Paulo Ruivo | 22-10-2019
Sem dúvida brilhante, dois escritores que conseguem maravilhar a mente com histórias simples e humanas. 
  • Coisas sérias
Antonio Pombinho | 13-10-2019
Dois escritores lusófonos que orgulham a nossa língua, contam três histórias aparentemente ligeiras mas que nos fazem refletir sobre assuntos muito sérios. 
  • Apreciação
José A. Rocha e Silva | 06-10-2019
Gosto dos autores. Correspondeu à minha expectativa. Satisfeito. Recomendo .

Quem é Mia Couto?

Nasceu na Beira, Moçambique, em 1955.Foi jornalista e professor, e é, atualmente, biólogo e escritor. Está traduzido em diversas línguas.
Entre outros prémios e distinções (de que se destaca a nomeação, por um júri criado para o efeito pela Feira Internacional do Livro do Zimbabwe, de Terra Sonâmbula como um dos doze melhores livros africanos do século XX), foi galardoado, pelo conjunto da sua já vasta obra, com o Prémio Vergílio Ferreira 1999 e com o Prémio União Latina de Literaturas Românicas 2007. Ainda em 2007 Mia foi distinguido com o Prémio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura pelo seu romance O Outro Pé da Sereia.
Jesusalém foi considerado um dos 20 livros de ficção mais importantes da «rentrée» literária francesa por um júri da estação radiofónica France Culture e da revista Télérama.
Em 2011 venceu o Prémio Eduardo Lourenço, que se destina a premiar o forte contributo de Mia Couto para o desenvolvimento da língua portuguesa.
Em 2013 foi galardoado com o Prémio Camões e com o prémio norte-americano Neustadt.  


Mia Couto segundo Anabela Mota Ribeiro:

 

Quem é José Eduardo Agualusa?

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade do Huambo, em Angola, a 13 de dezembro de 1960. Estudou Agronomia e Silvicultura. Viveu em Lisboa, Luanda, Rio de Janeiro e Berlim. É romancista, contista, cronista e autor de literatura infantil. Os seus romances têm sido distinguidos com os mais prestigiados prémios nacionais e estrangeiros, como, por exemplo, o Grande Prémio de Literatura RTP (atribuído a Nação Crioula, 1998); também os seus contos e livros infantis foram merecedores de prémios, como o Grande Prémio de Conto da APE e o Grande Prémio de Literatura para Crianças da Fundação Calouste Gulbenkian, respetivamente. O Vendedor de Passados ganhou o Independent Foreign Fiction Prize, em 2004, e, mais recentemente, o romance Teoria Geral do Esquecimento foi finalista do Man Booker International, em 2016, e vencedor do International Dublin Literary Award (antigo IMPAC Dublin Award), em 2017.A partir de 2013, José Eduardo Agualusa começou a publicar a sua obra na Quetzal. 


Entrevista:


9 curiosidades
 


Excertos da Graça Serra:


pág. 130:

[o meu pai] Caçava pássaros mas não os guardava em gaiolas, era na varanda do quarto que os prendia. Espalhava no chão a seiva da mulemba, aquela seiva branca e espessa, e os pobres ficavam com os pés colados.

pág. 137:

"As formigas estão por toda a parte. Até por dentro das pessoas elas estão. A senhora, por dentro, é um formigueiro, um morro de salalé com forma humana".








Salalé é uma espécie de formiga branca, alada. Estas formigas constroem altos morros de argila, em formato de cones, autênticas cidades que chegam a atingir a profundidade de 3 metros, a largura de 1m e mais, e cerca de 2m altura. No seu interior e solo subjacente existe um labirinto formado por milhares de cavidades formando corredores, autênticas estradas em vários sentidos, por onde se deslocam, para além de galerias para onde estas convergem. 

pág. 145:

"Então uma árvore começou a crescer no lugar onde o homem tinha desaparecido. Uma mulemba. Uma mulemba muito alta". 



pág. 159:

"Esse ladrão afinal era uma mulher. Fui eu que a levantei do chão e ela então disse uma coisa muito estranha. Disse assim mesmo: "Vou ser mulemba"



Há uma mulemba Gigante em Viriambundo (ver anexo), fica na província da Huila, a cerca de 100 Kms do Lubango (Sá da Bandeira), entre a Chibia e a Cahama, na estrada de Ondjiva (Pereira d'Eça).


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

CLUBE DE LEITURA - NOVEMBRO


Apesar da noite fria, nebulosa e ameaçadora de ontem, o rei D. Sebastião não surgiu e a sessão do Clube de Leitura decorreu animada.

A obra em discussão e análise foi "O amante" de Marguerite Duras, romance  traduzido para quarenta e três línguas, Prémio Goncourt, em 1984 e adaptado para o cinema em 1992.

Romance intemporal é o relato autobiográfico de um mundo perdido, que confirmou a genialidade da escrita de Duras, nome cimeiro da literatura mundial e um marco na literatura francesa.

Porque "a leitura alimenta-se de outras leituras", este livro foi selecionado pelo membros do Clube, por ter sido referido durante a leitura recente de "O princípio de Karenina" de Afonso Cruz, em que um dos protagonistas vai de Portugal para o Vietnam e visita a Casa-museu do amante de Duras. Num comentário cheio de humor, o autor refere que "o amante de Duras não sabia que era famoso".

"Hirochima, meu amor" também é uma obra interessante e mais popular, talvez por ter sido escrita em forma de guião para um filme, com muitos diálogos tornando-se, talvez por isso, mais fácil de ler.

Duras foi uma mulher independente, lutou pelos direitos das mulheres toda a sua vida, era uma mulher livre, sedutora e provocadora. Casou duas vezes, teve muitos amantes e só escreveu "O amante" quando todas as personagens já tinham morrido.

Duras nasceu em 1914 no atual Vietname - que à época ainda era uma colónia francesa, a Indochina - , só foi conhecer a França, país de origem de sua família, em 1932. Engajou-se na Resistência Francesa na Segunda Guerra Mundial, foi membro do Partido Comunista até 1950 e participou ativamente do movimento de Maio de 1968. Duras também trabalhou no teatro e no cinema. No filme Hiroshima meu amor, do cineasta francês Alain Resnais, o roteiro é de sua autoria. Ela ainda dirigiu cerca de quinze filmes, entre eles India Song. Seu primeiro sucesso teatral foi Une journée entière dans les arbres, peça encenada em 1965. Duras morreu em março de 1996, em Paris.

Escritora e cineasta francesa, a sua obra, habitada por personagens em busca de amor até aos limites da loucura ou do crime, foi visceralmente marcada pela juventude passada na Indochina. O romance autobiográfico L'Amant (1984) foi adaptado ao cinema, realizou Nathalie Granger (1973) e India Song (1975). 

Marguerite não gostou do resultado do filme "O amante" dirigido por Jean-Jacques Annaud, em 1992 e então resolver escrever outro romance "L'amant de la Chine du Nord", fazendo uma espécie de catarse, no qual revela ainda mais pormenores da sua vida e da família desestruturada e psicótica a que pertencia. Viveu uma infância muito triste, cheia de violência física e psicológica por parte da mãe e do irmão mais velho a quem apelidava de "assassino", daí a relacioná-lo com a guerra quando nos conta "Vejo a guerra com as mesmas cores que a minha infância. Confundo o tempo da guerra com o reinado do meu irmão mais velho".

Leitura densa, algumas vezes escrita na primeira pessoa e outras na terceira, mesclando o presente e passado, na qual não há um ordem cronológica, com analepses e prolepses frequentes. Nos relatos da sua vida a ordem é mais emocional e não temporal, as emoções são efetivamente o elo de ligação da narrativa.

O estilo de escrita é poético, límpido, simples, com descrições de uma beleza e encantamento pelas paisagens de um Vietname ainda no seu estado puro, quando refere por exemplo, "Olho o rio. A minha mãe dizia-me às vezes que nunca, em toda a minha vida, voltarei a ver rios tão belos como aqueles, tão grandes, tão selvagens, o Mékong, e os seus braços que descem para os oceanos". 
As descrições são verdadeiramente cinematográficas e a autora emociona-se com a beleza paisagística, a fauna e a flora quando descreve: "É portanto durante a travessia de um braço do Mékong na barcaça que está entre Vinhlong e Sadec, na grande planície de lama e de arroz do sul de Cochinchina, a das aves."

Os acontecimentos passam-se em Saigão, nos anos 30. Uma bela jovem francesa conhece o elegante filho de um negociante chinês. Deste encontro nasce uma paixão. Ela tem quinze anos e é pobre. Ele tem vinte e sete e é rico. Os amantes, isolados num mundo privado de erotismo e autodescoberta, desafiam as convenções da sociedade.
Enquanto ela desperta para a possibilidade de traçar o seu próprio caminho no mundo, para o seu amante não há fuga possível. A separação é inevitável e tragicamente cadenciada pelos últimos acordes da presença colonial francesa a Oriente.

A jovem é a própria autora e este é o relato exacerbado de uma paixão inquieta e dilacerante. De tão etérea, a sua realidade gravar-lhe-ia no rosto marcas implacáveis de maturidade. Para o mundo, fica uma obra que contém toda a vida.