sexta-feira, 26 de julho de 2019

CLUBE DE LEITURA - JULHO

Ontem, pelas 21h00, na biblioteca municipal, decorreu mais uma sessão do Clube de Leitura de Julho com a abordagem da obra "Princípio de Karenina" de Afonso Cruz.
Foi por opinião unânime que se considerou este livro como um dos mais descarnados e concisos e ao mesmo tempo dos mais belos do escritor. Não só pela narrativa, mas pelas reflexões, pelas citações, a imagem gráfica bastante cuidada, com fotografias no início de cada capítulo e que folheando nos sugerem imagens em movimento. A leitura foi agradável, o vocabulário riquíssimo, muita subtileza e algum suspense.

Construído com frases curtas em cinco capítulos, com descrições cinematográficas, linguagem intimista e slogans poéticos como “a imperfeição conquistará o mundo”, “reconheço-te desde sempre” ou “vou até ao meu primeiro dia” e onde a narração, mais até do que o diálogo, tem peso central.

Afonso Cruz confessa que se deixou influenciar mais por filósofos do que outros escritores, mas também é notório o seu vasto conhecimento, desde a cultura e mitologia grega, filosofia, literatura. Tudo isto deambula pela sua obra.
Princípio de Karenina, é bastante diferente dos anteriores. É o próprio Afonso Cruz que o admite: “É raro escrever livros como este, em que há uma história do princípio ao fim que não inclui outras histórias. É a história de uma personagem”.

 A obra imagina uma carta escrita por um homem à sua filha, que não conheceu. Na verdade tiveram um encontro fortuito, que foi mais um desencontro, narrando-lhe a sua vida desde a infância.

“Eu seria muito infeliz num mundo feliz. Ela seria feliz em qualquer mundo”. Assim começa o romance, numa espécie de diálogo com o início do magistral Ana Karenina, de Tolstoi, que arrancava com a famosa frase: “Todas as famílias felizes se parecem, todas as infelizes são infelizes à sua maneira”. 

 Aborda temas da atualidade, embora de forma metafórica, sobre a existência de barreiras em relação às outras culturas e à ideia do outro. Explora também o conceito de barbarie, de erguer muros, construir fronteiras, num período em que se volta a falar nelas. Também da recusa das ideias de fora, exógenas, quando na realidade todos somos feitos de uma absorção de ideias, da crescente absorção e evolução das línguas dos povos. A diversidade é que dá a mistura do que somos hoje.
Erguer muros não é uma forma de segurança, mas de uma prisão, simplesmente por medo do desconhecido. Mas o estrangeiro, o outro, já está presente, sem qualquer possibilidade de retorno e o autor faz-nos perceber isso quando nos conta que “Depois das batatas e das bactérias e do amor e da irresponsabilidade e da ida à praia e das conchas, comecei a encontrar-me cada vez com mais assiduidade com esse tal estrangeiro e a perceber que ele nos envolve e se mistura nas nossas vidas sem que nos apercebamos sequer da sua presença, apesar do tonitruante e penetrante e inescapável: a cadela Chihuahua que corria pelos corredores era de raça mexicana e o seu nome, Gina, devia-se a uma atriz italiana (Lollobrigida); o café vinha do Oriente ou de Timor ou do Brasil ou da Colômbia; os sapatos do meu pai eram italianos; as nuvens traziam dentro delas gotas de mares distantes; os livros da nossa biblioteca eram maioritariamente assinados por gregos e romanos; as colónias das tias eram francesas; Colónia é na Alemanha; o milho era da América do Central; o nome do salão de dança da vila era um trocadilho inglês (coincidance; os tomates era americanos; a Bíblia era semita e Deus tinha encarnado num estrangeiro, num judeu; o latim da missa era romano, assim como os esgotos; os números eram árabe; o açúcar vinha do Brasil; o pinheiro de Natal era nórdico; os árabes trouxeram laranjas e melão; o arroz e as massas vieram da Ásia; a bolacha Maria foi criada por um padeiro inglês; o ser humano nasceu em África, o nome de Salazar era espanhol; as cartas de jogar vieram da China; a canela do arroz doce era indiana; a única verdadeiramente nativa da Europa era a couve, tudo o resto era estrangeiro, a amêndoa veio do Afeganistão, as maçãs do Cazaquistão, os pêssegos da Pérsia, o damasco não veio de Damasco mas da Arménia, a alcachofra, da Palestina; nós, todos nós, somos pó de estrelas…” .
E também as tâmaras voaram de Hong-Kong...

Afonso Cruz encaminha-nos neste romance da educação opressiva e fechada "o meu pai fez-me coxo da cabeça" até a uma abertura para o mundo e a sua consequente libertação.

É a vida de todos nós, em que a infelicidade é diversa  e a felicidade uma utopia.

No entanto, está bem presente uma mensagem de esperança e otimismo "Todos os anjos caídos serão levantados", porque a existência  é uma sucessão de etapas e há sempre a possibilidade de um novo início a cada dia porque "a  beleza concerta-nos". 


 

 
 
 


terça-feira, 2 de julho de 2019

CLUBE DE LEITURA - JULHO


Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.




Livro indicado: "O princípio de Karenina" de Afonso Cruz

Data: 25 julho, 21h00 às 22h00

Sinopse:Um pai que se dirige à filha e lhe conta a sua história, que é a história de ambos, revelando distâncias e aproximando-se por causa disso, numa entrega sincera e emocional.

Uma viagem até aos confins do mundo, até ao Vietname e Camboja, até ao território que antigamente se designava como Cochinchina, para encontrar e perceber aquilo que está mais perto de nós, aquilo que nos habita. Um pai que ergue muros de silêncio, uma mãe que faz arco-íris de música, uma criada quase tão velha como o Mundo, um amigo que veste roupas de mulher, uma amante que carrega sabores e perfumes proibidos. São estas algumas das inesquecíveis personagens que rodeiam este homem que se dirige à filha, que testemunham - ou dificultam - essa procura do amor mais incondicional.

Uma busca que nos leva a todos a chegar tão longe, para lá de longe, para nos depararmos connosco, com as nossas relações mais próximas, com os nossos erros, com as nossas paixões, com as nossas dores e, ao somar tudo isto, entre sofrimento e júbilo, encontrar talvez felicidade.

Quem é Afonso Cruz?

Além de escritor, Afonso Cruz é também ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb. Nasceu em 1971, na Figueira da Foz, e viria a frequentar mais tarde a Escola António Arroio, em Lisboa, e a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, assim como o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira e mais de cinquenta países de todo o mundo. Já conquistou vários prémios: Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco 2010, Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2009, Prémio da União Europeia para a Literatura 2012, Prémio Autores 2011 SPA/RTP; Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2011, Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People, Prémio Ler/Booktailors – Melhor Ilustração Original, Melhor Livro do Ano da Time Out 2012 e foi finalista dos prémios Fernando Namora e Grande Prémio de Romance e Novela APE e conquistou o Prémio Autores para Melhor Ficção Narrativa, atribuído pela SPA em 2014. 

Crítica:

Mais uma fantástica obra 

Sou fã das obras de Afonso Cruz e, sinceramente, quando comecei a ver tanta gente a falar deste livro, fiquei com receio que ficar desiludida, porque as expectativas estavam muito elevadas. Mas é mesmo verdade que Afonso Cruz nunca desilude. Uma história tão tão bela, que nos faz relectir sobre tantos aspectos importantes da vida que tantas vezes descuramos... Não sendo das minhas obras favoritas do autor, é uma obra belíssima. 
Filipa | 24-02-2019 

Um bom "princípio"...

Este novo romance de Afonso Cruz merece, sem dúvida, ser lido, embora o final seja uma desilusão... Uma análise muito interessante do medo e das suas consequências ; uma reflexão sobre as emoções que se transformam em memórias. Um romance muito bom, apesar de um desenlace demasiado banal. 
Ilda Azinhais Velez | 09-02-2019  


Apontamentos de Graça Serra

Página 25:

"...antes os pobres comiam castanhas, depois entraram as batatas na gastronomia... o Van Gogh até pintou um quadro..."

O quadro a que o autor se refere é "Os Comedores de batata" e ficou terminado em 1885.

Pertence à primeira fase da pintura do artista, o período holandês, em que a paleta de cores era mais escura. 

O quadro retrata o jantar de uma família de camponeses, em que o prato principal é a batata, acompanhado por café. 

Este quadro encontra-se no Museu Van Gogh em Amesterdão.  
 Página 156

"Depois de ter ficado mais 2 dias em Ho Chi Minh, decidi subir o rio Mekong até Phnom Penh (...) Durante o trajecto, parámos para ver a casa do amante de Duras, onde tomámos chá. O amante de Duras não sabia que era famoso." 


Marguerite Duras nasceu em Saigão em 1914. 

Aos 70 anos, decide contar a história da sua iniciação sexual, quando adolescente, com um comerciante chinês  de Sa Dec, cidade a cerca de 140 km de Saigão, onde a mãe era professora. Ela tem 15 anos e é pobre, ele tem 27 e é rico. O seu nome é Huynh Thuy Le. Isto passa-se em 1929.  

As famílias não aceitam esta relação e a separação é inevitável, marcada pelos últimos acordes da presença colonial francesa na Indochina. Em 1932, tinha então 18 anos, M. Duras volta para França com a família e ele casa com uma noiva chinesa arranjada pelos pais.

O livro chama-se "O Amante" e foi publicado em 1984. Venceu o Prémio Goncourt desse ano. Foi traduzido em 43 línguas e adaptado ao cinema em 1992. 

Por causa do livro e do filme, a casa onde Huynh Thuy Le viveu em Sa Dec, primeiro com os pais e depois com a mulher e os filhos,  é reconhecida atualmente como monumento nacional e transformou-se numa atração turística. 

Huynh Thuy Le morreu em 1972 com 70 anos. 

Marguerite Duras morreu em 1996, com 82. 

A casa do amante de Marguerite Duras
  
Marguerite Duras e o amante



quinta-feira, 27 de junho de 2019

CLUBE DE LEITURA - JUNHO

No passado dia 26 de junho, pelas 21 horas, decorreu a sessão mensal do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal, para análise e debate da obra "Olhos verdes" de Luísa Costa Gomes.
Trata-se de um romance contemporâneo, com todos os aspetos da corrente pós-modernista, dinâmico, inovador, interessante, irónico, cheio de humor e neologismos. Segundo especialistas na matéria, tanto a construção das personagens como a técnica narrativa está aprimoradíssima nesta obra.
Jorge Listopad escreveu no Jornal de Letras a 24/ 5/ 82: “O que mais surpreende nas páginas da jovem autora (...) é o modo de escrever. Tranquilo, com neutralidade activa, mas neutralidade, o que não exclui um saber linguístico raro e engenhosamente apaixonado. Mas além deste saber da escrita, opcional e tecnicamente perfeita, há outro saber, o de contar".
Luísa Costa Gomes escreve pelo prazer de escrever, sem preocupações em agradar aos seus leitores, preferindo direcionar a sua escrita a leitores inteligentes, reflexivos, exigindo-lhes alguma pesquisa muito para além do que nos oferece o texto.
O romance "Olhos verdes" já foi escrito em 1994, mas mantém uma completa atualidade. As personagens são obcecadas pela imagem, pela aparência, claramente psicóticas, contraditórias, bizarras.
Paulo Levi, hipocondríaco, é modelo de roupa interior; Eva Simeão é "doida varrida" e viciada em TV; o seu ex-marido, Paulo Mateus, deslumbrou-se com a América, que é outro mundo; João Baptista Daniel, perseguido por Eva mas não se interessando por esta, é diretor de marquetingue; Beatriz sua mulher, é revisora gráfica; as irmãs Fonseca, Maria do Céu e Maria das Dores, oscilam entre o esteticismo e o esoterismo; Ísis, amiga de Eva, dedica-se ao desaine; Lourenço é fotógrafo; Anadir é a raínha dos jingles publicitários.
Com este conjunto de personagens,  que se entrecruzam casualmente e se evadem da realidade, a autora apresenta-nos um retrato da sociedade contemporânea, com a nítida ausência de valores, vazias, solitárias, narcisistas, sem ideia de um sentido para a vida,  centradas na cultura de massas, onde a banalização das notícias transmitidas pelos meios de comunicação nos anestesiam e “já nada daquilo que se vê eventualmente poderá fazer-nos sofrer ou fazer-nos felizes”. Mas "as pessoas são capazes de suportar tudo, desde que o possam suportar confortavelmente sentadas" e "o Bem vale mais que o Mal porque há de menos. É a lei da oferta e da procura". 
A formação filosófica da autora transparece claramente no longo capítulo V, dedicado a George Berkeley, filósofo britânico, do século 18, que tentou demonstrar que a realidade material só existe na perceção que temos dela, enquadrando a narrativa numa moldura teórica, no sentido de dar resposta às questões que Eva Simeão coloca a João-Baptista "o que é isto que eu vejo? O que é isto que eu sinto? Deve haver uma ligação entre o que eu vejo e o que eu sinto. Mas o que eu vejo deixa-me perplexa e intrigada, porque não sei ao certo o que vejo. Verei exatamente o que estou a ver? Porque se assim é, então não posso olhar mais. Não estou segura do que devo sentir. Será que devia sentir alguma coisa?"
A autora pertence à geração que frequentava a universidade quando o regime salazarista foi derrubado, dando lugar ao aparecimento de uma nova sociedade, com novas preocupações e novas sensações.  Focando-se nessa nova sociedade emergente, escreveu romances, teatro, contos, argumentos, etc.
Os escritores de que mais a terão marcado foram Kafka e Beckett, em especial Nabokov.
Às suas obras têm sido atribuídos diversos prémios, como o Prémio Eça de Queirós, D. Dinis, Máxima, Associação Portuguesa de Escritores. 



sexta-feira, 31 de maio de 2019

CLUBE DE LEITURA - JUNHO

Com uma periodicidade mensal (à exceção de agosto), o Clube de Leitura destina-se a promover o prazer da leitura partilhada. As reuniões decorrem à volta de um livro previamente escolhido e lido por todos, proporcionando a convivência e a discussão entre quem gosta de ler e explorar os livros lidos, tornando a experiência da leitura ainda mais estimulante. Pontualmente poderá ter um escritor/dinamizador convidado.








Livro indicado: "Olhos verdes" de Luísa Costa Gomes



Data: 27 junho, 21h00 às 22h00 



Sinopse: Olhos Verdes trata da aparência e do acaso. Os seus personagens fazem parte do mundo das aparências: trabalham em profissões ou têm inclinações que implicam uma evasão da realidade: Pedro Levi é modelo de roupa interior; Eva Simeão é viciada em TV; o seu ex-marido, Paulo Mateus, deslumbrou-se com a América, que é "outro mundo"; João Baptista Daniel, perseguido por Eva mas não se interessando por esta, é director de marquetingue; Beatriz, sua mulher, é revisora gráfica ("Passa a melhor parte do seu dia a tornar mais pitoresca a realidade"); as irmãs Fonseca, Maria do Céu e Maria das Dores, oscilam entre o esteticismo e o esoterismo; Ísis, amiga de Eva, dedica-se ao disaine; Lourenço é fotógrafo; Anadir é a rainha dos jingles publicitários... Com todos eles, Luísa Costa Gomes pinta um nervoso retrato dos seres da sociedade contemporânea, que se entrecruzam casualmente e se evadem da realidade. Um longo capítulo dedicado a George Berkeley, o filósofo britânico que tentou demonstrar que a realidade material só existe na percepção que temos dela, tenta enquadrar a narrativa numa moldura teórica. Luísa Costa Gomes criou um romance dinâmico, interessante e cheio de humor, que se reflecte em muitas das suas linhas: "Tinha saudades dele a partir do metro e quarenta de distância"... "As pessoas são capazes de suportar tudo, desde que o possam suportar confortavelmente sentadas"... "O Bem vale mais que o Mal porque há de menos. É a lei da oferta e da procura."



Luísa Costa Gomes

Nasceu em 16 de Junho de 1954. É licenciada em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa. Foi por vários anos professora do Ensino Secundário e trabalhou ainda no programa Escritores nas Escolas. Traduziu livros, traduziu e legendou filmes, Tem colaborado em vários jornais e revistas, programas de rádio e televisão.
A sua obra literária começou com a publicação, em 1981, do livro "Treze Contos de Sobressalto". Desde aí já lá vai dezena e meia de títulos, entre o conto, o romance, o teatro e a crónica, com variados prémios, e traduções no estrangeiro. Várias das suas peças subiram ao palco. Escreveu o libretto de algumas óperas, entre elas o célebre "Corvo Branco", de Philip Glass, com encenação de Robert Wilson, apresentado por ocasião da Expo 98 (e também em Madrid e em Nova Iorque). Criou a revista de contos FICÇÕES, que dirige e coordena. 


Críticas: 

Olhos Verdes não segue uma estrutura narrativa linear. Centra-se em dois personagens predominantes, Pedro Levi e Eva Simeão, mas não se fica por estes, há toda uma série de outros personagens (uns mais secundários que outros) que vamos conhecendo à medida que se relacionam com Pedro e Eva e uns com os outros. É uma história sobre pessoas e sobre as suas complexidades. Pedro e Eva são personagens muito humanas, neuróticas e desajustadas, sempre em busca de algo inatingível, quer se trate de uma obsessão com um vizinho ou da procura de uma cura. E a obsessão com a imagem é algo que está sempre presente nas acções e pensamentos dos personagens.
Apesar da escrita fragmentada, estava a gostar do livro até chegar ao capítulo V. Até pensei que este teria sido um livro interessante para estudar nas aulas de português do secundário pois, por vezes pareceu-me adivinhar significados escondidos que seria giro analisar. Então qual é o problema? É que o capítulo V é a coisa mais surreal de sempre. Do nada, a autora resolve presentear-nos com a biografia do filósofo George Berkeley. Sim, leram bem, são 42 páginas (num livro com 194) única e exclusivamente com a biografia de uma personagem que nunca havia sido mencionada antes. Bom, mas há um motivo para isso que percebemos no capítulo seguinte, certo? Não, não há. E apesar da explicação dada na sinopse para a existência deste capítulo, a mim não me convence e continuo a achar que o mesmo é totalmente desnecessário. Com certeza haveria uma outra forma menos massuda e até mais eficaz de atingir o mesmo efeito, não?

E o pior é o que o capítulo anterior termina num cliffhanger e passei 42 páginas à espera de finalmente saber o que tinha acontecido... Eis que inicio o último capítulo e deparo-me com a descrição do Assalto ao Aeroporto. Sim, o filme com o Bruce Willis. Ah pois é, depois de uma biografia nada melhor que o argumento de um filme. o_O

Pronto se resolverem ler, não digam que não avisei e preparem-se para uma experiência verdadeiramente esquizofrénica. E estão à vontadinha para saltar o capítulo V, a não ser que apreciem biografias de filósofos do século XVIII. Depois não digam que não avisei... 

(Landslide)

CLUBE DE LEITURA - MAIO



Ontem, dia 30 de maio, pelas 21h00, decorreu na biblioteca municipal, a sessão do Clube de Leitura de Maio para a abordagem, análise e discussão da obra "O pianista de hotel" de Rodrigo Guedes de Carvalho.

O último romance do autor, considerado pela crítica como a sua melhor produção literária, é construído em camadas, com a história de duas personagens principais, que vai sendo contada, alternadamente e dada a conhecer em doses pequenas.

A obra, formalmente, está bem estruturada, bem pensada, muito rigorosa, com linguagem simples, corrente, familiar e por vezes até bastante vulgar, na linha da que é usada pelos novos escritores de romances que têm emergido no panorama literário nacional. Notam-se também algumas semelhanças com o estilo de António Lobo Antunes e José Saramago.
É um romance denso, "opressivo e de uma enorme força", no qual as personagens que vão surgindo são apresentadas de forma muito semelhante a um argumento para cinema e que prende o leitor até ao final. 

Lembra-nos um pouco o filme dos finais dos anos 90, "O sexto sentido" com uma personagem que dizia "I see dead people", porque no final, percebemos que algumas personagens nunca existiram ou já estão mortas.

Curiosamente há uma referência às mochilas Montecampo, que são fabricadas em S. João da Madeira há mais de 40 anos.

A obra foca-se na vida quotidiana, onde paira o amor, a perda, a violência doméstica e sexual, a homossexualidade incompreendida, a morte, a solidão, os demónios que habitam em cada um de nós, encontros e muitos desencontros, mergulhando-nos nas profundezas da alma humana, em permanentes reflexões sobre tudo. A melancolia está presente do princípio ao fim. 

O filósofo espanhol da primeira metade do século passado, Ortega y Gasset, é referido na sua célebre frase que sintetiza sua maneira de compreender e interpretar o mundo. eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não me salvo eu”. Com um pouco de reflexão entendemos que ele nos lembra que não somos seres isolados, independentes e autossuficientes. Se eu 'sou eu e minha circunstância', isso quer dizer que somos a soma de nós mesmos, das nossas singularidades, mais as condições - favoráveis ou adversas - do meio e das circunstâncias nas quais estamos mergulhados. Mas no romance muitas das personagens estão completamente sós na vida, porque praticamente não têm suporte familiar, ou sentem-se sós no meio da multidão. 

A música é um fio condutor nesta obra. As referências musicais são uma constante e a vontade do enfermeiro Luís Gustavo de enveredar pelo caminho da música, vivendo até um pouco frustrado e obcecado com sua evolução nesse sentido assemelha-se ao que se passa com o próprio autor que já fez um pouco de tudo, menos aquilo que reprime há muito tempo, que é dar aso à sua veia musical.

Há constantes reflexões sobre a “perseguição” a uma das personagens mais interessantes, Pedro Gouveia, quando afirma que "a mediocridade é o mais perigoso dos caçadores furtivos, e não descansará, nunca, enquanto não eliminar o animal raro que lhe faz sombra, que não a deixa dormir, a mesquinhez baixinha e insegura é eternamente agitada porque o animal raro, simplesmente existe. Todos os outros pecados mortais, combinados, são uma brincadeira comparados com a inveja".

No final, quando tudo se poderia conjugar para a concretização de alguns encontros entre as duas personagens principais e que as poderiam fazer mitigar as suas chagas da alma, percebemos que apenas se cruzam e tudo acaba em desencontro. E, muitas vezes é assim, sem final feliz e sem o pianista de hotel...

Fiquemos pois com o excelente texto final “Depois do fim”, no qual Rodrigo Guedes de Carvalho revela muito sobre si próprio e da sua forma de sobreviver à sensação de perda que todos vamos tendo longo da vida.

“Os meus mortos visitam-me regularmente.
Demorei a dar por eles. Não tenho religião que me valha ou guie, e acreditava que os mortos morrem no momento em que morrem, espere-os uma nuvem, uma labareda, ou só a terra onde se deitam a dormir para nunca mais.
Demorei a exigir que não podia ser só isto. Sou ao contrário: era mais conformado em jovem.
Por vezes, se estou num jantar com muita gente e muito ruído, e fico cansado, desce um silêncio que só eu ouço e uma neblina desfoca as pessoas que falam e riem, e vejo-o, sentado na outra ponta da mesa. Por vezes ergue-me o copo, e eu retribuo. Olhamos um pelo outro.
Também a vejo a ela, sobretudo se fecho os olhos e inspiro, e estou outra vez pequeno na cozinha grande, e ela deixa-me rapar da panela o açúcar amarelo que ficou agarrado depois de fazer os biscoitos.
E também um amigo meu, que nasceu no ano em que nasci, e que partiu cedo sem me dizer adeus, acenou-me um dia destes, estava eu na praia, pé ante pé hesitante, a entrar na água fria, e ele já nas ondas muito brancas lá à frente, mergulhava feliz, e acenou-me da espuma, nunca envelheceu.
O corpo? O corpo chega aos outros sempre antes de nós, é portanto natural que parta antes de nós.
Por isso o meu velho está aqui o comigo. Enquanto escrevo, verifica a sua coleção de selos, pega num, com a pinça, espreita com a lupa pequenina, cataloga, está tranquilo. Claro que não posso dizer que vejo claramente. Está numa penumbra e todo ele é linhas difusas.
Eles têm a idade que quiserem.
Nunca digo a ninguém que estão aqui comigo. Mas estão. Acredito. Eu, homem sem nenhuma outra fé, acredito.
Devo-lhes isso”.